Finanças

Licença sem vencimento: o que é e como funciona

4 minutos de leitura
Atualizado a 21 outubro 2026
Escrito por Rute Ferreira
homem pensativo a ler documento impresso

A vida profissional pode, por vezes, exigir que façamos uma pausa. Seja para estudar, cuidar de um familiar ou para se dedicar a um projeto pessoal, a licença sem vencimento surge como uma solução. Leia tudo o que precisa saber sobre esta prerrogativa.

 

 

O que é a licença sem vencimento?

Também conhecida como licença sem retribuição, trata-se de um período de ausência do trabalho durante o qual o funcionário não recebe ordenado, mas mantém o vínculo laboral com a empresa. Por outras palavras, durante esse período de tempo, o trabalhador fica dispensado das suas funções mas sem perder o emprego. Esta licença está prevista no artigo 317.º do Código do Trabalho e pode ser pedida por diversos motivos, sendo a formação e os estudos os mais comuns.

 

 

Quem tem direito à licença sem vencimento?

Qualquer trabalhador pode pedir uma licença sem vencimento. Contudo, há situações específicas em que a solicitação não pode ser recusada pelo empregador, nomeadamente para formação ou estudos, desde que se cumpram certas condições:

 

  • O trabalhador tem direito a pedir uma licença sem vencimento de duração superior a 60 dias para frequentar cursos de formação ou de ensino ministrados por instituições de ensino ou de formação profissional, ou no âmbito de programas aprovados pela autoridade competente, ou ainda para frequência de curso ministrado em estabelecimento de ensino, desde que: 
    • Não tenha beneficiado, nos últimos 24 meses, de formação profissional adequada ou de licença para o mesmo fim  
    • Tenha pelo menos três anos de antiguidade na empresa
    • Faça o pedido com uma antecedência mínima de 90 dias
    • Não se verifique nenhuma das situações de impossibilidade de substituição do trabalhador que a lei admite como motivo de recusa (ver abaixo). 
  • Para outros motivos, como questões pessoais ou familiares, o pedido de licença sem vencimento depende sempre do consentimento da entidade patronal.

 

 

Qual é a duração?

A lei não define um prazo máximo para a duração da licença, deixando essa decisão ao critério do trabalhador e do empregador. Contudo, o direito à licença para formação ou estudos aplica-se apenas a licenças de duração superior a 60 dias. Nas restantes situações, a lei não fixa uma duração mínima. Para fins de formação ou estudos, a duração da licença pode corresponder à duração do curso ou formação em questão.

 

 

O vínculo laboral mantém-se durante a licença?

Sim, durante a licença sem vencimento, o vínculo laboral entre o trabalhador e a empresa é mantido. Mas é importante perceber que ficam suspensos os direitos e obrigações que dependem da prestação efetiva de trabalho, como o pagamento do salário. Este período de licença conta, ainda, para a antiguidade na empresa, o que significa que não perde o tempo de serviço acumulado. O mesmo não acontece na Segurança Social. Como não há retribuição, também não há descontos durante a licença, pelo que, em regra, esse período não conta para a carreira contributiva. Isso pode ter reflexos, por exemplo, no valor da futura pensão. 

 

E relativamente às férias?

 

Durante a licença sem vencimento, o trabalhador não acumula direito a férias. As férias que já se tinham vencido antes do início da licença não se perdem.  Após o regresso ao trabalho, terá direito a gozar o período de férias proporcional ao tempo de serviço prestado no ano da licença e aos respetivos subsídios de férias e de Natal, proporcionalmente ao período trabalhado.

A entidade patronal pode recusar o pedido de licença?

Sim. Fora dos casos de formação ou estudos, a concessão depende sempre do acordo do empregador. No caso da licença para formação ou estudos, a lei só admite a recusa nas seguintes situações: 

 

  • O trabalhador já ter beneficiado, nos últimos 24 meses, de formação profissional adequada ou de licença para o mesmo fim 
  • O trabalhador ter menos de três anos de antiguidade na empresa
  • O pedido não ter sido feito com a antecedência mínima de 90 dias
  • A impossibilidade de substituir adequadamente o trabalhador durante o período da licença, caso necessário, em microempresas ou pequenas empresas, ou de o substituir sem prejuízo sério para o funcionamento da empresa, no caso de trabalhadores com nível de qualificação de direção, chefia, quadro ou pessoal qualificado. 

 

É importante salientar que, salvo as situações específicas acima previstas no artigo 317.º do Código do Trabalho, constitui uma contraordenação grave a recusa de concessão da licença sem vencimento para fins de formação ou estudos. Caso o empregador indefira o pedido de licença nessas circunstâncias, o trabalhador tem o direito de recorrer à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) ou ao Tribunal de Trabalho para contestar a decisão.
Além disso, mesmo que a licença seja concedida, o empregador não pode impedir o trabalhador de retomar a sua atividade normal após o término do período de licença. Conforme o artigo 295.º do Código do Trabalho, qualquer impedimento ao regresso do trabalhador é também considerado uma contraordenação grave.

 

 

Como pedir licença sem vencimento?

A lei não impõe uma forma específica, mas é aconselhável fazer o pedido por escrito, por carta ou outro meio equivalente, para que fique prova do pedido e da data em que foi feito. Isso é relevante, por exemplo, para a antecedência de 90 dias exigida na licença para formação. Na solicitação, deve mencionar explicitamente que está a pedir uma licença sem vencimento, as razões que justificam o pedido e a duração pretendida. Pela mesma razão, convém que a resposta do empregador seja também dada por escrito, quer aceite ou recuse o pedido.

 

É igual na função pública?

Na função pública, a licença sem vencimento (legalmente designada licença sem remuneração, encontra-se nos artigos 280.º e seguintes da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas) segue regras semelhantes, mas existem algumas especificidades. Por exemplo, o trabalhador tem direito a licença para acompanhar o cônjuge colocado no estrangeiro por mais de 90 dias ou por tempo indeterminado, em missões de defesa ou representação de interesses do País ou em organizações internacionais de que Portugal seja membro. A lei prevê ainda uma licença própria para exercer funções em organismos internacionais. A duração da licença na função pública pode variar consoante a situação específica, e o regresso ao trabalho deve ser solicitado até 90 dias após o término da situação que motivou a licença.

 

Há ainda duas diferenças importantes face ao setor privado. Em regra, o tempo de licença não conta para a antiguidade. Além disso, se a licença durar um ano ou mais, o regresso depende da existência de um posto de trabalho livre: se o seu estiver ocupado, o trabalhador tem de aguardar que surja uma vaga no serviço ou candidatar-se a um procedimento concursal noutro organismo. Estas limitações não se aplicam às licenças de duração inferior a um ano, às fundadas em circunstâncias de interesse público, como a de exercício de funções em organismos internacionais ou a de acompanhamento do cônjuge colocado no estrangeiro, neste último caso quando a licença dura menos de dois anos.  

 

 

O que é uma licença sem vencimento de longa duração?

O Código do Trabalho não define este conceito. Na função pública, para efeitos da licença para formação, a lei considera de longa duração a licença superior a 60 dias. É o mesmo limiar a partir do qual, no setor privado, existe o direito à licença para formação ou estudos. Embora a lei não estabeleça um limite máximo, uma licença prolongada pode implicar acordos específicos entre o trabalhador e a entidade patronal, incluindo eventuais condições para o regresso ao trabalho.

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.

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