Finanças

Futuras notas de euro: os 10 desenhos finalistas e como pode dar a sua opinião até 21 de setembro

8 minutos de leitura
Publicado a 27 outubro 2026
Escrito por Rute Ferreira
Conjunto de notas de 20 e 50 euros

As notas de euro vão ter um novo visual. Pela primeira vez desde que entraram em circulação, em 2002, o desenho vai ser refeito de raiz e, desta vez, o Banco Central Europeu quer ouvir os europeus antes de decidir.

 

Há dez propostas finalistas. Umas trazem rostos conhecidos, como os de Marie Curie ou de Beethoven. Outras substituem as pessoas por rios e aves da Europa. O inquérito público online, aberto a qualquer pessoa, decorreu entre 23 de julho e 21 de setembro de 2026 e já terminou: participaram quase 10 milhões de pessoas. A decisão final do BCE está prevista para o final de 2026.

 

 

Os dez desenhos que estiveram em consulta

Este será o primeiro redesenho completo das notas de euro desde 2002. A série atual, a "Europa", lançada a partir de 2013, manteve o tema original, "Épocas e estilos", e introduziu melhorias de segurança, durabilidade e alguns elementos visuais. Desta vez muda o essencial: o tema, os motivos e a linguagem visual.

 

O concurso foi lançado em 2025 e recebeu mais de 1.200 candidaturas de designers gráficos residentes na União Europeia. Destes, 25 foram convidados a apresentar propostas e um júri independente de 21 especialistas, um por cada banco central da área do euro, selecionou dez propostas.

 

As propostas dividem-se por dois temas definidos previamente pelo BCE: "Cultura europeia", assente em personalidades e espaços culturais, e "Rios e aves", que percorre paisagens fluviais europeias e as espécies que nelas vivem. Cinco propostas para cada tema. Mais à frente explicamos como se chegou a estes dois temas e não a outros. 

O que as distingue não é apenas o traço. É a ideia por trás de cada uma:

 

Tabela explicativa das propostas dos 10 desenhos finalistas
DesenhoAutoriaTemaIdeia central
AStudio Joost GrootensCultura europeiaOlhos e bocas em vez de retratos: perceção e expressão como capacidade humana partilhada
BPunktFormStrichRios e avesCada ave com o seu canto traduzido em barras e a velocidade de voo numa escala vertical
CNeue Gestaltung GmbHCultura europeiaRetratos com cor dominante por nota, mapa da Europa e constelações no verso
DRudy Guedj e François Girard-MeunierRios e avesPaisagens abstratas ligadas por um rio; instituições da UE expressas por gestos de mãos
EMyrsini VardopoulouCultura europeiaCírculos e símbolos em vez de rostos: o valor do trabalho acima da personalidade
FJan Robert DünnwellerCultura europeiaColagem de formas e texturas sobre retratos desenhados à mão, a ilustrar "Unida na diversidade"
GRubio & del Amo e Cruz más CruzCultura europeiaUm olhar que interpela quem olha; virando as notas, quatro blocos formam "E", "U", "R", "O"
HAtelier Goppel-ToperngpongRios e avesA água como analogia das instituições: uma gota é pouco, um rio esculpe montanhas
IIsabelle DaëronRios e avesO movimento como tema; a ave mensageira entre sociedade e natureza
JVille TietäväinenRios e avesNarrativa fluvial da nascente ao mar, com a banda de segurança a funcionar como infografia

 

Pode ver todas as propostas, nota a nota, no site do BCE.

 

Uma ressalva do próprio BCE: estas imagens são propostas, não notas finais. O resultado é uma interpretação criativa de cada autor e não garante que qualquer elemento apareça, tal como está representado, na série que vier a ser emitida.

 

 

E Portugal, onde entra nisto?

Nenhuma das seis personalidades escolhidas para o tema "Cultura europeia" é portuguesa. Mas uma especialista portuguesa participou no júri responsável pela pré-seleção dos desenhos.

 

Cada banco central da área do euro nomeou um especialista para integrar o júri do concurso. A representante portuguesa foi Marta de Figueiredo, designer gráfica que trabalhou no Banco de Portugal.

 

O júri não era só de designers. Incluiu também um arqueólogo, uma arquiteta, um fotógrafo de natureza e professores de neurociência cognitiva e de psicologia experimental, porque uma nota tem de ser reconhecida em segundos, muitas vezes com pouca luz e sem que ninguém lhe preste verdadeiramente atenção. Entre os jurados esteve ainda Robert Kalina, o designer austríaco que desenhou a primeira série de notas de euro, que entrou em circulação em 2002.

 

 

O que vai estar em cada nota

Um detalhe sobre as notas que tem hoje na carteira: as janelas, os pórticos e as pontes que lá estão não existem. São estilos arquitetónicos genéricos, do clássico à arquitetura em ferro e vidro do século XIX, e o BCE é explícito ao afirmar que nenhum dos monumentos ou pontes representados existe na realidade.

 

Os motivos propostos para a próxima série inspiram-se em personalidades, paisagens e instituições reais, e a escolha dos temas não foi arbitrária.

 

Em 2023, o Conselho do BCE pré-selecionou sete temas possíveis e submeteu-os a inquérito público. O inquérito online do BCE recebeu mais de 365.000 respostas, a que se juntou um inquérito a uma amostra representativa de 23.377 europeus, e três temas destacaram-se: "Cultura europeia", "Rios: as águas da vida na Europa" e "Aves: livres, resilientes e inspiradoras". Como dois deles eram sobre natureza, o BCE juntou-os num só tema. Ficaram os dois que foram submetidos ao inquérito público de 2026. 

 

Os motivos concretos previstos para cada nota foram selecionados pelo Conselho do BCE em janeiro de 2025, a partir das propostas de um grupo de especialistas criado para o efeito.

 

"Cultura europeia: espaços culturais partilhados"

 

Tabela explicativa das figuras propostas para as notas de cultura europeia
NotaEspaço culturalFrenteVerso
5€Artes performativasMaria CallasArtistas de rua a atuar para transeuntes
10€MúsicaLudwig van BeethovenFestival da canção com coro de crianças e jovens
20€Universidades e escolasMarie CurieSala de aula com professora e estudantes
50€BibliotecasMiguel de CervantesBiblioteca com leitores de livros impressos e digitais
100€Museus e exposiçõesLeonardo da VinciAdultos e crianças a observar arte
200€Praças públicasBertha von SuttnerPraça arborizada com pessoas a conviver

 

As figuras cobrem seis séculos de história europeia e vão da ópera à física, da literatura ao pacifismo. Bertha von Suttner, a menos conhecida do grupo, foi a primeira mulher a receber o Nobel da Paz.

 

"Rios e aves: resiliência na diversidade"

 

Tabela explicativa das figuras propostas para as notas de Rios e aves
NotaPaisagemAveVerso
5€Nascente de montanhaTrepadeira-dos-murosParlamento Europeu
10€CascataGuarda-riosComissão Europeia
20€Vale fluvial confinadoColónia de abelharucosBanco Central Europeu
50€Rio meandriformeCegonha-brancaTribunal de Justiça da UE
100€Foz de um rioAlfaiate (ave limícola)Conselho Europeu e Conselho da UE
200€Paisagem marítimaGanso-patolaTribunal de Contas Europeu

 

A lógica deste tema é narrativa: a série acompanha um rio desde a nascente até ao mar, e a denominação mais alta é também a mais próxima do oceano. Cinco destas seis aves são familiares a quem vive em Portugal. A exceção é a trepadeira-dos-muros, ave de alta montanha que nidifica nos Alpes, nos Pirenéus e nos Picos da Europa e que em Portugal tem estatuto de espécie acidental. 

 

 

Como funcionou o inquérito (e o que decidia, de facto) 

Onde e como se respondia

O inquérito sobre o novo visual das notas de euro esteve disponível  no site oficial do BCE, onde continuam a poder ver-se as dez propostas, cada uma com as seis notas (5, 10, 20, 50, 100 e 200 euros), de frente e de verso.

 

Responder era gratuito, online e não exigia identificação. O que se pedia era simples: avaliar as diferentes propostas de desenho e indicar as preferências pessoais. Não era preciso ser designer nem perceber de tipografia.

 

Período: de 23 de julho a 21 de setembro de 2026 (encerrado).

 

Participaram 9,96 milhões de pessoas, dois terços delas com menos de 35 anos. Na área do euro, a participação chegou a cerca de 2,6% da população. O BCE anunciou que os resultados detalhados por país serão divulgados após a decisão final sobre o desenho das futuras notas. O BCE não vai divulgar, para já, os resultados de cada proposta. 

 

Isto é uma votação? Não exatamente

Vale a pena ser rigoroso, porque quase toda a cobertura mediática fala em "votação" e a palavra cria uma expectativa errada. O que o BCE lançou foi um inquérito de opinião, não um referendo: não há uma contagem em que o desenho com mais votos ganha automaticamente.

 

Segundo o comunicado oficial de 23 de julho, a decisão é do Conselho do BCE e assenta num conjunto de contributos, entre os quais: 

  • As conclusões do júri do concurso de desenho
  • Uma avaliação técnica das propostas
  • Os resultados do inquérito público online
  • Os resultados de um segundo inquérito, aplicado por uma empresa independente a uma amostra representativa de cidadãos da área do euro.

 

Porquê dois inquéritos em paralelo?

Porque um inquérito online aberto é, por natureza, autosselecionado: responde quem se interessa pelo tema, quem viu a notícia, quem tem tempo. Isso pode enviesar o resultado.

 

O segundo inquérito, com as mesmas perguntas, foi realizado junto de uma amostra representativa da população da área do euro e serve de contraponto estatístico. Reduz também o peso de eventuais mobilizações organizadas em torno de uma proposta. No final de setembro, o BCE indicava que este segundo inquérito estava ainda a ser finalizado. 

 

A opinião do público conta e é levada a sério: o BCE compromete-se a publicar um relatório com os resultados de ambos os inquéritos depois de escolhido o desenho. Mas não é vinculativa.

 

 

Porque é que as notas mudam (não é por estética)

A renovação das notas é, antes de mais, uma questão de segurança. Os bancos centrais atualizam regularmente as suas notas ou desenvolvem novas séries para acompanhar a evolução tecnológica e dificultar a contrafação, como explica o BCE nas suas perguntas frequentes. 

 

Os números atuais são tranquilizadores. Em 2025 foram retiradas de circulação cerca de 444 mil notasde euro contrafeitas, na área do euro e noutras regiões do mundo, menos 20% do que em 2024. Isso corresponde a 14 notas falsas por cada milhão de notas genuínas, um dos rácios mais baixos desde o lançamento do euro, para um universo de mais de 31 mil milhões de notas em circulação. As notas de 20 e 50 euros concentram cerca de 80% das contrafações.

 

Em Portugal, o Banco de Portugal apreendeu 8.839 notas contrafeitas em 2025, menos 20% do que no ano anterior e apenas 2% do total de notas contrafeitas detetadas a nível mundial. A exceção foi a nota de 50 euros, que subiu para 3.327 apreensões. 

 

Ou seja: o sistema está a funcionar, e é precisamente por isso que o BCE não espera que deixe de funcionar para preparar a série seguinte. Entretanto, a melhor defesa continua a ser o método "tocar, observar e inclinar", descrito na página do BCE sobre os elementos de segurança.

 

Acessibilidade. As futuras notas vão incorporar elementos que facilitam a autenticação e o uso por pessoas cegas e amblíopes. O BCE mantém contacto regular com a União Europeia de Cegos, como já tinha feito no desenvolvimento da série atual.

 

Ambiente. O objetivo declarado é reduzir a pegada ambiental das notas, aumentando a durabilidade e recorrendo a materiais e processos de produção mais sustentáveis. Uma nota que dura mais é uma nota que se imprime menos vezes.

 

 

O que não vai mudar

Nem tudo muda. Isto é o que o BCE já indicou que deverá ficar igual: 

O BCE tenciona manter os mesmos valores de hoje: 5, 10, 20, 50, 100 e 200 euros

  • Não está prevista nenhuma nota de valor novo. Não vai haver nota de 1 euro, que continua a existir apenas como moeda, nem o regresso da nota de 500 euros
  • Os tamanhos e as cores dominantes deverão manter-se, para facilitar a transição e limitar os custos de adaptação das máquinas de tratamento de notas
  • As notas atualmente em circulação vão manter a sua validade e continuar a circular a par da nova série, conforme indicado pelo BCE.

 

Este último ponto merece destaque, porque é a dúvida que gera mais ansiedade. Não foi anunciada qualquer troca obrigatória nem qualquer prazo-limite, e não é preciso fazer nada com o dinheiro que tem em casa. Se está a pensar no assunto, a questão relevante não é o desenho das notas: é se faz sentido ter dinheiro parado em casa quando poderia estar a render numa conta poupança.

 

E a nota de 500 euros? Deixou de ser produzida (a decisão foi tomada em 2016 e os bancos centrais cessaram a emissão em 2019), mas mantém curso legal e o seu valor, podendo ser trocada nos bancos centrais nacionais do Eurosistema por tempo ilimitado, como confirma o Banco de Portugal. Não fará parte da nova série.

 

 

Quando é que as novas notas chegam à carteira?

Não existe uma data definida. O que existe é uma sequência conhecida, documentada na página do BCE sobre as futuras notas:

 

Tabela explicativa das etapas do processo das novas notas de euro
EtapaQuando
Anúncio do processo de redesenhoDezembro de 2021
Grupos focais e inquéritos sobre temas2021-2023
Seleção dos motivos para os dois temas Janeiro de 2025
Concurso de desenho (candidaturas)Julho e agosto de 2025
Entrega das propostas pelos designersAté 24 de abril de 2026 
Divulgação dos 10 finalistas e inquérito público23 de julho a 21 de setembro de 2026 (concluído)
Decisão final do Conselho do BCEPerto do final de 2026
Desenvolvimento técnico, testes e produçãoA definir
Entrada em circulaçãoPrevisivelmente, a partir do início da década de 2030, de forma gradual. Ainda sem calendário definitivo aprovado

 

Depois de escolhido o desenho, é preciso desenvolvê-lo tecnicamente, testar os elementos de segurança e preparar a produção à escala de toda a área do euro. Na série atual, as notas dos vários valores foram introduzidas gradualmente ao longo de vários anos.

 

 

Notas novas e euro digital: não confundir

São dois projetos distintos, ambos do BCE. O redesenho das notas é sobre numerário físico; o euro digital é um projeto separado, com calendário próprio e enquadramento legislativo europeu ainda em negociação entre o Parlamento Europeu e o Conselho da UE. O BCE indica que, se o regulamento for adotado no decurso de 2026, o euro digital poderá ser emitido em 2029. 

 

Aliás, o argumento do BCE vai no sentido contrário ao do "fim do dinheiro vivo": investir numa nova série de notas é um sinal de compromisso com o numerário. E os dados sustentam-no. Segundo o estudo SPACE do BCE, em 2024 o numerário foi usado em 52% das transações no ponto de venda na área do euro, menos do que os 59% de 2022 mas ainda mais de metade, e representou 39% do valor total pago. Mesmo com o crescimento dos pagamentos digitais, o numerário continua a ser o instrumento mais usado no ponto de venda e entre particulares. 

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.
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