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As notas de euro vão ter um novo visual. Pela primeira vez desde que entraram em circulação, em 2002, o desenho vai ser refeito de raiz e, desta vez, o Banco Central Europeu quer ouvir os europeus antes de decidir.
Há dez propostas finalistas. Umas trazem rostos conhecidos, como os de Marie Curie ou de Beethoven. Outras substituem as pessoas por rios e aves da Europa. O inquérito público online, aberto a qualquer pessoa, decorreu entre 23 de julho e 21 de setembro de 2026 e já terminou: participaram quase 10 milhões de pessoas. A decisão final do BCE está prevista para o final de 2026.
Este será o primeiro redesenho completo das notas de euro desde 2002. A série atual, a "Europa", lançada a partir de 2013, manteve o tema original, "Épocas e estilos", e introduziu melhorias de segurança, durabilidade e alguns elementos visuais. Desta vez muda o essencial: o tema, os motivos e a linguagem visual.
O concurso foi lançado em 2025 e recebeu mais de 1.200 candidaturas de designers gráficos residentes na União Europeia. Destes, 25 foram convidados a apresentar propostas e um júri independente de 21 especialistas, um por cada banco central da área do euro, selecionou dez propostas.
As propostas dividem-se por dois temas definidos previamente pelo BCE: "Cultura europeia", assente em personalidades e espaços culturais, e "Rios e aves", que percorre paisagens fluviais europeias e as espécies que nelas vivem. Cinco propostas para cada tema. Mais à frente explicamos como se chegou a estes dois temas e não a outros.
O que as distingue não é apenas o traço. É a ideia por trás de cada uma:
| Desenho | Autoria | Tema | Ideia central |
|---|---|---|---|
| A | Studio Joost Grootens | Cultura europeia | Olhos e bocas em vez de retratos: perceção e expressão como capacidade humana partilhada |
| B | PunktFormStrich | Rios e aves | Cada ave com o seu canto traduzido em barras e a velocidade de voo numa escala vertical |
| C | Neue Gestaltung GmbH | Cultura europeia | Retratos com cor dominante por nota, mapa da Europa e constelações no verso |
| D | Rudy Guedj e François Girard-Meunier | Rios e aves | Paisagens abstratas ligadas por um rio; instituições da UE expressas por gestos de mãos |
| E | Myrsini Vardopoulou | Cultura europeia | Círculos e símbolos em vez de rostos: o valor do trabalho acima da personalidade |
| F | Jan Robert Dünnweller | Cultura europeia | Colagem de formas e texturas sobre retratos desenhados à mão, a ilustrar "Unida na diversidade" |
| G | Rubio & del Amo e Cruz más Cruz | Cultura europeia | Um olhar que interpela quem olha; virando as notas, quatro blocos formam "E", "U", "R", "O" |
| H | Atelier Goppel-Toperngpong | Rios e aves | A água como analogia das instituições: uma gota é pouco, um rio esculpe montanhas |
| I | Isabelle Daëron | Rios e aves | O movimento como tema; a ave mensageira entre sociedade e natureza |
| J | Ville Tietäväinen | Rios e aves | Narrativa fluvial da nascente ao mar, com a banda de segurança a funcionar como infografia |
Pode ver todas as propostas, nota a nota, no site do BCE.
Uma ressalva do próprio BCE: estas imagens são propostas, não notas finais. O resultado é uma interpretação criativa de cada autor e não garante que qualquer elemento apareça, tal como está representado, na série que vier a ser emitida.
Nenhuma das seis personalidades escolhidas para o tema "Cultura europeia" é portuguesa. Mas uma especialista portuguesa participou no júri responsável pela pré-seleção dos desenhos.
Cada banco central da área do euro nomeou um especialista para integrar o júri do concurso. A representante portuguesa foi Marta de Figueiredo, designer gráfica que trabalhou no Banco de Portugal.
O júri não era só de designers. Incluiu também um arqueólogo, uma arquiteta, um fotógrafo de natureza e professores de neurociência cognitiva e de psicologia experimental, porque uma nota tem de ser reconhecida em segundos, muitas vezes com pouca luz e sem que ninguém lhe preste verdadeiramente atenção. Entre os jurados esteve ainda Robert Kalina, o designer austríaco que desenhou a primeira série de notas de euro, que entrou em circulação em 2002.
Um detalhe sobre as notas que tem hoje na carteira: as janelas, os pórticos e as pontes que lá estão não existem. São estilos arquitetónicos genéricos, do clássico à arquitetura em ferro e vidro do século XIX, e o BCE é explícito ao afirmar que nenhum dos monumentos ou pontes representados existe na realidade.
Os motivos propostos para a próxima série inspiram-se em personalidades, paisagens e instituições reais, e a escolha dos temas não foi arbitrária.
Em 2023, o Conselho do BCE pré-selecionou sete temas possíveis e submeteu-os a inquérito público. O inquérito online do BCE recebeu mais de 365.000 respostas, a que se juntou um inquérito a uma amostra representativa de 23.377 europeus, e três temas destacaram-se: "Cultura europeia", "Rios: as águas da vida na Europa" e "Aves: livres, resilientes e inspiradoras". Como dois deles eram sobre natureza, o BCE juntou-os num só tema. Ficaram os dois que foram submetidos ao inquérito público de 2026.
Os motivos concretos previstos para cada nota foram selecionados pelo Conselho do BCE em janeiro de 2025, a partir das propostas de um grupo de especialistas criado para o efeito.
| Nota | Espaço cultural | Frente | Verso |
|---|---|---|---|
| 5€ | Artes performativas | Maria Callas | Artistas de rua a atuar para transeuntes |
| 10€ | Música | Ludwig van Beethoven | Festival da canção com coro de crianças e jovens |
| 20€ | Universidades e escolas | Marie Curie | Sala de aula com professora e estudantes |
| 50€ | Bibliotecas | Miguel de Cervantes | Biblioteca com leitores de livros impressos e digitais |
| 100€ | Museus e exposições | Leonardo da Vinci | Adultos e crianças a observar arte |
| 200€ | Praças públicas | Bertha von Suttner | Praça arborizada com pessoas a conviver |
As figuras cobrem seis séculos de história europeia e vão da ópera à física, da literatura ao pacifismo. Bertha von Suttner, a menos conhecida do grupo, foi a primeira mulher a receber o Nobel da Paz.
| Nota | Paisagem | Ave | Verso |
|---|---|---|---|
| 5€ | Nascente de montanha | Trepadeira-dos-muros | Parlamento Europeu |
| 10€ | Cascata | Guarda-rios | Comissão Europeia |
| 20€ | Vale fluvial confinado | Colónia de abelharucos | Banco Central Europeu |
| 50€ | Rio meandriforme | Cegonha-branca | Tribunal de Justiça da UE |
| 100€ | Foz de um rio | Alfaiate (ave limícola) | Conselho Europeu e Conselho da UE |
| 200€ | Paisagem marítima | Ganso-patola | Tribunal de Contas Europeu |
A lógica deste tema é narrativa: a série acompanha um rio desde a nascente até ao mar, e a denominação mais alta é também a mais próxima do oceano. Cinco destas seis aves são familiares a quem vive em Portugal. A exceção é a trepadeira-dos-muros, ave de alta montanha que nidifica nos Alpes, nos Pirenéus e nos Picos da Europa e que em Portugal tem estatuto de espécie acidental.
O inquérito sobre o novo visual das notas de euro esteve disponível no site oficial do BCE, onde continuam a poder ver-se as dez propostas, cada uma com as seis notas (5, 10, 20, 50, 100 e 200 euros), de frente e de verso.
Responder era gratuito, online e não exigia identificação. O que se pedia era simples: avaliar as diferentes propostas de desenho e indicar as preferências pessoais. Não era preciso ser designer nem perceber de tipografia.
Período: de 23 de julho a 21 de setembro de 2026 (encerrado).
Participaram 9,96 milhões de pessoas, dois terços delas com menos de 35 anos. Na área do euro, a participação chegou a cerca de 2,6% da população. O BCE anunciou que os resultados detalhados por país serão divulgados após a decisão final sobre o desenho das futuras notas. O BCE não vai divulgar, para já, os resultados de cada proposta.
Vale a pena ser rigoroso, porque quase toda a cobertura mediática fala em "votação" e a palavra cria uma expectativa errada. O que o BCE lançou foi um inquérito de opinião, não um referendo: não há uma contagem em que o desenho com mais votos ganha automaticamente.
Segundo o comunicado oficial de 23 de julho, a decisão é do Conselho do BCE e assenta num conjunto de contributos, entre os quais:
Porque um inquérito online aberto é, por natureza, autosselecionado: responde quem se interessa pelo tema, quem viu a notícia, quem tem tempo. Isso pode enviesar o resultado.
O segundo inquérito, com as mesmas perguntas, foi realizado junto de uma amostra representativa da população da área do euro e serve de contraponto estatístico. Reduz também o peso de eventuais mobilizações organizadas em torno de uma proposta. No final de setembro, o BCE indicava que este segundo inquérito estava ainda a ser finalizado.
A opinião do público conta e é levada a sério: o BCE compromete-se a publicar um relatório com os resultados de ambos os inquéritos depois de escolhido o desenho. Mas não é vinculativa.
A renovação das notas é, antes de mais, uma questão de segurança. Os bancos centrais atualizam regularmente as suas notas ou desenvolvem novas séries para acompanhar a evolução tecnológica e dificultar a contrafação, como explica o BCE nas suas perguntas frequentes.
Os números atuais são tranquilizadores. Em 2025 foram retiradas de circulação cerca de 444 mil notasde euro contrafeitas, na área do euro e noutras regiões do mundo, menos 20% do que em 2024. Isso corresponde a 14 notas falsas por cada milhão de notas genuínas, um dos rácios mais baixos desde o lançamento do euro, para um universo de mais de 31 mil milhões de notas em circulação. As notas de 20 e 50 euros concentram cerca de 80% das contrafações.
Em Portugal, o Banco de Portugal apreendeu 8.839 notas contrafeitas em 2025, menos 20% do que no ano anterior e apenas 2% do total de notas contrafeitas detetadas a nível mundial. A exceção foi a nota de 50 euros, que subiu para 3.327 apreensões.
Ou seja: o sistema está a funcionar, e é precisamente por isso que o BCE não espera que deixe de funcionar para preparar a série seguinte. Entretanto, a melhor defesa continua a ser o método "tocar, observar e inclinar", descrito na página do BCE sobre os elementos de segurança.
Acessibilidade. As futuras notas vão incorporar elementos que facilitam a autenticação e o uso por pessoas cegas e amblíopes. O BCE mantém contacto regular com a União Europeia de Cegos, como já tinha feito no desenvolvimento da série atual.
Ambiente. O objetivo declarado é reduzir a pegada ambiental das notas, aumentando a durabilidade e recorrendo a materiais e processos de produção mais sustentáveis. Uma nota que dura mais é uma nota que se imprime menos vezes.
Nem tudo muda. Isto é o que o BCE já indicou que deverá ficar igual:
O BCE tenciona manter os mesmos valores de hoje: 5, 10, 20, 50, 100 e 200 euros
Este último ponto merece destaque, porque é a dúvida que gera mais ansiedade. Não foi anunciada qualquer troca obrigatória nem qualquer prazo-limite, e não é preciso fazer nada com o dinheiro que tem em casa. Se está a pensar no assunto, a questão relevante não é o desenho das notas: é se faz sentido ter dinheiro parado em casa quando poderia estar a render numa conta poupança.
E a nota de 500 euros? Deixou de ser produzida (a decisão foi tomada em 2016 e os bancos centrais cessaram a emissão em 2019), mas mantém curso legal e o seu valor, podendo ser trocada nos bancos centrais nacionais do Eurosistema por tempo ilimitado, como confirma o Banco de Portugal. Não fará parte da nova série.
Não existe uma data definida. O que existe é uma sequência conhecida, documentada na página do BCE sobre as futuras notas:
| Etapa | Quando |
|---|---|
| Anúncio do processo de redesenho | Dezembro de 2021 |
| Grupos focais e inquéritos sobre temas | 2021-2023 |
| Seleção dos motivos para os dois temas | Janeiro de 2025 |
| Concurso de desenho (candidaturas) | Julho e agosto de 2025 |
| Entrega das propostas pelos designers | Até 24 de abril de 2026 |
| Divulgação dos 10 finalistas e inquérito público | 23 de julho a 21 de setembro de 2026 (concluído) |
| Decisão final do Conselho do BCE | Perto do final de 2026 |
| Desenvolvimento técnico, testes e produção | A definir |
| Entrada em circulação | Previsivelmente, a partir do início da década de 2030, de forma gradual. Ainda sem calendário definitivo aprovado |
Depois de escolhido o desenho, é preciso desenvolvê-lo tecnicamente, testar os elementos de segurança e preparar a produção à escala de toda a área do euro. Na série atual, as notas dos vários valores foram introduzidas gradualmente ao longo de vários anos.
São dois projetos distintos, ambos do BCE. O redesenho das notas é sobre numerário físico; o euro digital é um projeto separado, com calendário próprio e enquadramento legislativo europeu ainda em negociação entre o Parlamento Europeu e o Conselho da UE. O BCE indica que, se o regulamento for adotado no decurso de 2026, o euro digital poderá ser emitido em 2029.
Aliás, o argumento do BCE vai no sentido contrário ao do "fim do dinheiro vivo": investir numa nova série de notas é um sinal de compromisso com o numerário. E os dados sustentam-no. Segundo o estudo SPACE do BCE, em 2024 o numerário foi usado em 52% das transações no ponto de venda na área do euro, menos do que os 59% de 2022 mas ainda mais de metade, e representou 39% do valor total pago. Mesmo com o crescimento dos pagamentos digitais, o numerário continua a ser o instrumento mais usado no ponto de venda e entre particulares.
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