Finanças

Como os retroativos de IRS de 2025 vão influenciar o seu reembolso em 2026

4 minutos de leitura
Publicado a 6 Janeiro 2026
Senhora a contar notas de 50 euros

Os retroativos de IRS deram um fôlego extra aos salários de agosto e setembro e, para muitos contribuintes, pareceram quase um prémio inesperado. Mas, na verdade, não são um bónus nem um apoio especial: representam apenas o acerto das retenções que foram feitas a mais entre janeiro e julho.

 

E, apesar de ter ajudado, o ajuste vai voltar a fazer-se sentir novamente quando chegar o IRS em 2026.

 

 

O que são os retroativos de IRS?

Apesar da palavra “retroativos” soar a extra, a verdade é que não são nenhum subsídio, prémio ou oferta do Estado. É apenas um acerto de contas.

 

Todos os meses, quem trabalha por conta de outrem adianta IRS ao Estado através da retenção na fonte. Quando as tabelas mudam a meio do ano (como aconteceu em 2024 e voltou a acontecer em 2025) pode acontecer que os descontos feitos entre janeiro e julho tenham sido superiores ao que seria devido à luz das novas taxas.

 

Resultado: é preciso corrigir. E essa correção faz-se aumentando o salário líquido em agosto e setembro, para devolver (via retenção mais baixa ou mesmo nula) aquilo que ficou retido a mais nos meses anteriores.

 

Isto é o retroativo: devolver o imposto que não deveria ter sido descontado. Nem mais, nem menos.

 

 

Como funcionaram os retroativos em agosto e setembro?

Tudo começou com a atualização das tabelas de retenção na fonte. O Governo decidiu ajustar novamente o IRS (um corte global de 500 milhões de euros) e, para isso, as novas tabelas precisavam de refletir a redução desde o início do ano.

 

As novas tabelas foram publicadas através do Despacho n.º 8464-A/2025, que também permitiu às empresas aplicar os acertos ao longo do ano, até dezembro, caso não conseguissem atualizar os salários em agosto.

 

Para compensar os descontos feitos a mais entre janeiro e julho, entrou então em cena o acerto de verão.

 

Na prática, os retroativos refletiram-se assim:

 

  • As retenções em agosto e setembro desceram drasticamente
  • Quem ganhava até cerca de 1.136 euros brutos ficou mesmo sem qualquer desconto de IRS nesses dois meses
  • Pensionistas com pensões até 1.116 euros também ficaram isentos no mesmo período
  • Em outubro, tudo voltou ao normal, mas com retenções ligeiramente mais baixas do que em julho (porque o IRS desceu), embora mais altas do que nos meses excecionais de agosto e setembro.

 

Ou seja: agosto e setembro foram meses atípicos, criados para acomodar o acerto. Outubro em diante é que reflete a “verdadeira” tabela do ano.

 

Um detalhe que passou despercebido a muita gente: os retroativos pagos no verão foram mais generosos do que o necessário para compensar o excesso de retenção entre janeiro e julho. Vários fiscalistas chamaram a atenção — o Governo quis dar um alívio imediato maior, mas isso terá impacto no acerto de 2026.

 

 

Investimento total: 500 milhões de euros na descida do IRS

A redução do IRS anunciada pelo Governo representou um investimento global de 500 milhões de euros. O corte não aconteceu apenas nos meses do acerto: está presente nas taxas finais do próprio imposto anual.

 

O problema é que, para devolver o imposto retido a mais, agosto e setembro acabaram por trazer um alívio ainda maior do que esse corte justificava.

 

Milhões de trabalhadores beneficiaram

A medida teve impacto direto em mais de dois milhões de trabalhadores e pensionistas. No imediato, as contas bancárias receberam um fôlego extra, e isso fez diferença no orçamento de verão: pagar férias, aliviar dívidas, lidar com despesas familiares, ou simplesmente respirar um pouco.

Um alívio fiscal imediato

Para muitos contribuintes, foi mesmo a primeira vez que viram duas prestações mensais totalmente isentas de IRS. O efeito foi sentido de forma transversal.

 

  • Salários mais baixos: alívio total
  • Salários médios: aumentos líquidos relevantes
  • Salários altos: redução temporária na retenção igualmente sentida.

 

Vale lembrar que este alívio foi temporário e não representa um benefício adicional, mas sim um ajuste técnico.

 

Impacto nas contas das famílias

A curto prazo, este dinheiro a mais ajudou milhares de famílias a ganhar margem financeira. Mas esse conforto deve vir com cautela: o que entrou em agosto e setembro muito provavelmente vai refletir-se num reembolso mais pequeno ou até num valor a pagar em 2026.

 

E porque é que isto acontece? Porque ao receber mais agora, desconta menos do que corresponde ao imposto real do ano.

 

 

Qual será o impacto no IRS de 2025 (entregue em 2026)?

Aqui está a pergunta que mais importa agora. Com as novas tabelas, a redução das taxas e os retroativos extraordinários de agosto e setembro, o que vai acontecer quando entregar a declaração de IRS em 2026?

 

A resposta curta: na maioria dos casos, vai receber menos reembolso — ou poderá mesmo ter de pagar imposto.

 

E porquê? Porque a retenção feita nestes dois meses esteve muito abaixo do imposto final anual. Em muitos casos, demasiado abaixo.

 

As simulações das consultoras apontam todas no mesmo sentido:

 

  • A retenção de agosto e setembro esteve muito distante daquilo que deveria ter sido
  • Para rendimentos acima de cerca de 3.000 euros, a maioria dos contribuintes deverá pagar imposto no acerto
  • Quem ganha entre 1.200 e 2.000 euros poderá ver um reembolso mais curto do que o habitual
  • Só rendimentos muito baixos tendem a não sentir grande diferença.

 

No exemplo da consultora PWC, para o Jornal de Negócios:

 

Um trabalhador solteiro, sem filhos, que ganha 1.500 euros brutos:

 

  • IRS real devido sobre os rendimentos de 2025: 2.354,73 euros
  • IRS retido ao longo do ano: 2.228 euros
  • Acerto em 2026: paga 126 euros ao Estado.

 

É o exemplo perfeito de como o salário extra do verão reaparece mais tarde… mas com sinal contrário.

 

 

A descida global do IRS em 500 milhões de euros foi real, refletida nas taxas e nos rendimentos de outubro em diante. Mas o efeito excecional dos meses de verão vai sentir-se no acerto de 2026: reembolsos mais baixos e, em vários casos, imposto a pagar.

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