Finanças

Como rentabilizar o meu dinheiro?

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Atualizado a 24 setembro 2026
taxa de juros e inflação: rentabilizar património

A taxa de poupança das famílias portuguesas tem-se mantido em níveis historicamente elevados. No 1.º trimestre de 2026, situou-se em 12,3% do rendimento disponível, mantendo-se estável face ao trimestre anterior. 

 

Por outro lado, o contexto económico voltou a mudar. Depois da forte subida da inflação e das taxas de juro entre 2022 e 2023, a inflação continua acima do objetivo do Banco Central Europeu e as taxas de juro permanecem num nível relevante para quem tem poupanças ou crédito.

 

Neste contexto, que estratégias devem ser seguidas pelas famílias para aplicar as suas poupanças?

 

 

Porque estão as taxas de juro estão altas?

As taxas de juro são o principal instrumento utilizado pelos bancos centrais para gerir os riscos de inflação. Na última década, a inflação esteve muito baixa e existiam riscos de que a inflação pudesse ser negativa. Em reação, os bancos centrais baixaram as taxas de juro de referência para zero e adotaram medidas não convencionais adicionais, como a aquisição de dívida pública e a injeção de liquidez, o que contribuiu para conduzir as taxas de juro para mínimos absolutos históricos, inclusive com níveis negativos.

 

Quando os preços estão a subir com demasiada rapidez – ou seja, quando a inflação é demasiado elevada – o aumento das taxas de juro é uma forma de tentar reduzir a inflação. O objetivo passa por assegurar que a inflação permaneça baixa, estável e previsível, situando-se idealmente nos 2% a médio prazo.

 

Em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a inflação acelerou muito rapidamente, para os valores mais elevados em quase três décadas atingindo 10,6% na área do euro em outubro desse ano, fruto das perturbações nas cadeias de valor e do choque energético subsequente, pelo que o Banco Central Europeu reagiu com uma subida pronunciada das taxas de juro em 4,5 pontos percentuais, para travar uma espiral inflacionista.

 

Atualmente (setembro de 2026), a inflação permanece acima do objetivo do BCE. Segundo a estimativa rápida do Eurostat, a inflação anual na área do euro situou-se em 3,3% em agosto, acima dos 2,9% registados em julho. A 10 de setembro, o Banco Central Europeu decidiu aumentar as três taxas de juro diretoras em 0,25 pontos percentuais, para 2,50% na facilidade permanente de depósito, 2,65% nas operações principais de refinanciamento e 2,90% na facilidade permanente de cedência de liquidez, com efeitos a partir de 16 de setembro. O BCE continua, contudo, sem se comprometer previamente com uma trajetória específica para as taxas de juro. 

 

 

Como aplicar o dinheiro neste cenário?

A subida das taxas de juro de referência pelo BCE tem reflexos ao nível das taxas ativas (taxas pagas por um crédito) assim como nas passivas (taxas remuneradas aos clientes pelos depósitos que têm junto dos bancos). Estas alterações não se refletem necessariamente de forma imediata ou na mesma proporção nas taxas dos créditos e dos depósitos. 

 

As famílias, contudo, continuam a dispor de alternativas de aplicação das suas poupanças.

 

O contexto de taxas de juro mais elevadas permite uma oferta de alternativas de aforro de mais longo prazo (fundos de investimento, seguros financeiros) por contraponto aos depósitos bancários.

 

Por outro lado, as famílias podem – e já o estão a fazer – efetuar aplicações em produtos de aforro do Estado, como os certificados de aforro, cuja Série F tem uma taxa variável associada à Euribor a três meses. Em setembro de 2026, a taxa de juro bruta para novas subscrições da Série F foi fixada em 2,50%, podendo acrescer prémios de permanência nos termos aplicáveis. 

 

Adicionalmente, podem optar, não pela constituição de ativos financeiros, mas pela redução de passivos financeiros (créditos) – dinâmica que está também em curso. Como a maioria dos contratos de crédito à habitação com taxa variável está indexada à Euribor, algumas famílias podem optar por amortizar parcialmente os seus empréstimos, comparando o custo do crédito com a remuneração que conseguiriam obter através das suas poupanças. 

 

Como as preferências das famílias são bastante variadas, relativamente ao perfil de risco e objetivos de rentabilidade, há também muitas famílias que continuam a preferir a segurança à remuneração, optando por manter o dinheiro nas suas contas à ordem ou em aplicações de capital garantido (que proporcionam retornos mais baixos).

 

O problema é que num contexto de inflação mais elevada, uma baixa remuneração da poupança pode implicar uma perda de valor. Porquê?

 

Uma das funções do dinheiro consiste em ser uma reserva de valor. Isto significa que o dinheiro é um ativo que é usado para “transportar” valor de hoje para o futuro, daí dizermos que poupar significa deixar de consumir hoje para consumir no futuro. Por exemplo, poupamos hoje 100 euros para gastar os mesmos 100 euros dentro de 1 ano. Mas será que estes 100 euros permitem comprar os mesmos bens e serviços que os 100 euros de hoje?

 

 

O dinheiro também desvaloriza…

Como tem percebido no seu dia a dia, os bens e serviços estão mais caros, pelo efeito da inflação. Significa isto que o seu dinheiro perde valor, ou seja, à medida que o tempo passa os mesmos 100 euros já não compram os mesmos bens e serviços. Para manter o poder de compra, temos de aplicar o dinheiro e obter retornos pelo menos iguais à taxa de inflação. Esta situação assume especial relevância no atual contexto em que a inflação permanece elevada.

 

Para facilitar a sua análise, pense nos conceitos de taxa de retorno:

 

  • Nominal – A taxa que resulta da relação entre o montante final e o montante investido inicialmente. Imaginando que investiu 100 euros e que no final tem 101 euros, a taxa de retorno nominal é de 1%
  • Real – A taxa de retorno real é a taxa de retorno nominal descontada do efeito da inflação. Para o mesmo exemplo, consideremos que a taxa de inflação naquele ano foi de 3%. Facilmente percebemos que a taxa de retorno real foi negativa em 2%. Na prática, temos mais dinheiro, mas já não conseguimos comprar os mesmos bens e serviços, i.e., perdemos valor: temos 101 euros mas o cabaz de bens e serviços já custa 103 euros.

 

Como percebemos, a taxa de retorno real é a taxa que deve interessar aos aforradores, na medida em que é aquela taxa que nos indica o ganho (ou perda) de poder de compra.

 

 

O dinheiro também tem risco

Portanto, mesmo num cenário de taxas de juro elevadas, pode ocorrer que a remuneração nominal seja inferior à inflação. Mas, habitualmente, esta é uma situação transitória, ou seja, quando a inflação acelera muito rapidamente é possível que fique acima das taxas de juro.

 

Numa visão de médio e longo prazo, as taxas de juro nominais tendem a incorporar as expectativas de inflação e uma componente real. Isto não significa, contudo, que a taxa de juro tenha necessariamente de ser superior à inflação em todos os períodos. 

 

Deste modo, se percebemos que o dinheiro também desvaloriza, saberemos que ter poupanças aplicadas em aplicações sem qualquer rentabilidade pode ser arriscado, porque podemos perder poder de compra, mesmo que mantenhamos o valor nominal que aplicámos inicialmente.

 

Isto não significa que não deveremos colocar dinheiro em instrumentos de poupança tradicionais, especialmente se falarmos dos fundos que temos para fazer face a emergências.

 

Significa, antes, que temos de ser mais criteriosos quando pensamos a nossa estratégia de aforro, pensando em diferentes instrumentos e em diferentes prazos de aplicação, numa estratégia de diversificação.

 

Significa, por isso, que teremos de considerar outras alternativas de investimento, como os fundos de investimento, os seguros financeiros ou os planos poupança reforma (que têm benefícios fiscais que podem ser muito relevantes). Nesta opção de aplicação da poupança importa ter presente o risco, liquidez e horizonte temporal para fazer uma escolha adequada que permita uma acumulação de património no médio e longo prazo sem perda de poder de compra.

 

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