Finanças

Comprar casa com taxa mista: faz mesmo sentido em 2026?

4 minutos de leitura
Publicado a 23 Fevereiro 2026
Casinhas de madeira numa mesa e alguém a colocar várias moedas numas espécies de torres

Com a descida gradual das taxas de juro, muitas famílias voltam a ponderar a compra de casa. Mas entre taxa fixa, variável ou mista, a resposta não é imediata. Para perceber em que situações a taxa mista pode ou não fazer sentido, falámos com Catarina Brandão, fundadora do Cat.Poupança, especialista em literacia financeira e gestão familiar.

 

Catarina começa por contextualizar: a taxa mista ganhou destaque sobretudo entre 2023 e 2024, como forma de proteção face à escalada da Euribor. 

 

“Hoje o cenário mudou. As taxas estabilizaram, o ambiente é mais previsível, mas a verdade é que ninguém sabe como vão evoluir os próximos meses — nem em Portugal, nem no mundo”, alerta.

 

É por isso que, mesmo em 2026, este tipo de taxa continua a ser uma opção válida, embora não necessariamente a melhor para todos.

 

A educadora financeira sublinha que o mais importante é perceber o perfil e o momento de vida de cada família. Por exemplo, quando a prestação está no limite e tira o sono, a previsibilidade trazida pela taxa mista pode ser uma ajuda preciosa. O mesmo se aplica a quem está a dar os primeiros passos na vida financeira e precisa de tempo para criar uma reserva. Também pode ser uma escolha estratégica: 

 

“Há quem a use com o objetivo de amortizar durante o período fixo, aproveitando esse ‘balão de oxigénio’ inicial”, explica. 

 

E, claro, há fases mais instáveis (como uma mudança de trabalho ou a chegada de um filho) em que a estabilidade da prestação pode ser uma mais-valia.

 

No curto e médio prazo, o grande trunfo da taxa mista é mesmo a previsibilidade. Durante o período fixo, a prestação mantém-se inalterada, o que facilita bastante o planeamento. 

 

“É mais fácil fazer um orçamento, definir metas de poupança e não viver com a ansiedade mensal das oscilações da Euribor”, defende Catarina. 

 

Ainda que, em muitos casos, essa estabilidade inicial implique uma taxa mais elevada do que na variável, para muitas famílias esse é um custo que compensa.

 

O desafio, segundo a especialista, está em não cair na armadilha do “depois logo se vê”. Quando termina o período fixo, o crédito passa a ter uma taxa variável e a prestação fica sujeita às flutuações do mercado. Por isso, Catarina aconselha a ter bem presente a data de transição, o indexante associado (3, 6 ou 12 meses) e a simular o pior cenário possível. 

 

“É fundamental perceber até onde pode subir a prestação sem comprometer o orçamento familiar”, defende. 

 

A previsibilidade de hoje tem de ser aproveitada para preparar a incerteza de amanhã.

 

Mas, afinal, como escolher entre taxa variável, fixa ou mista? Catarina propõe uma explicação simples: a variável é indicada para quem aceita jogar com o mercado e convive bem com revisões regulares da prestação. A fixa garante previsibilidade durante todo o contrato, ideal para quem privilegia segurança. Já a mista junta as duas abordagens — e é precisamente por isso que tem atraído tantos olhares. Para quem valoriza estabilidade, mas não quer “fechar a porta” a eventuais descidas de juros, parece ser o tal meio-termo.

 

Ainda assim, Catarina deixa um alerta:

 

“Estamos sempre a trabalhar com eventualidades. A taxa mista dá um fôlego no orçamento, mas essa folga deve ser bem usada.”

 

E essa utilização passa, por exemplo, por reforçar a poupança ou avançar com um plano de amortização antecipada.

 

Catarina deixa algumas sugestões: 

 

  • Usar o período fixo para fortalecer a reserva de emergência
  • Evitar aumentar o estilo de vida apenas porque a prestação está controlada
  • Rever o contrato antes da transição para avaliar possíveis renegociações ou transferências.

 

Quanto à amortização antecipada, pode ser uma boa escolha — desde que não comprometa a saúde financeira da família. 

 

“Antes de amortizar, é importante garantir que o orçamento mensal está equilibrado e que existe uma reserva que cubra imprevistos, como despesas médicas ou avarias em casa”, reforça.

 

Para quem não domina os termos nem os cenários, o medo de “escolher mal” é real. Catarina reconhece esse receio e dá um conselho que aplica a todas as áreas das finanças pessoais: tomar decisões com base na realidade de cada família. 

 

“O melhor para uns não é necessariamente o melhor para outros. É preciso olhar para o agregado familiar, estabilidade profissional, e para o que realmente valorizam.” Por isso, recomenda fazer simulações, testar cenários e fazer perguntas difíceis: “Se a prestação subir 300 euros, conseguimos manter o essencial? Vivemos mês a mês ou temos um fundo de emergência?”

 

Na sua experiência, a literacia financeira faz toda a diferença. 

 

“As pessoas ouvem falar em taxa mista, fixa ou variável, mas muitas vezes não sabem o que isso significa no dia a dia. O vocabulário técnico afasta mais do que aproxima.” 

 

Traduzir conceitos como Euribor, spread ou revisão da prestação para exemplos práticos é, para Catarina, uma das chaves para decisões mais conscientes — e menos stressantes.

 

No final, quisemos saber que conselhos daria a uma família com filhos pequenos e orçamento estável, à procura da melhor opção. Catarina não hesita: começa-se sempre pelas contas. Só depois entram os fatores emocionais ou de estilo de vida. 

 

“Fazemos simulações, avaliamos a margem de conforto de cada opção, e ponderamos a existência de poupanças ou reservas. Muitas vezes, este exercício já mostra claramente qual é o caminho mais tranquilo.”

 

E, como última nota, identifica um erro comum: decidir com base apenas no valor da prestação no momento da contratação, ignorando o que pode acontecer no futuro.

 

“Contratar crédito habitação sem perceber como funciona a Euribor, o spread ou os prazos é como entrar num jogo sem conhecer as regras. E isso, inevitavelmente, aumenta os riscos.”

 

Uma coisa é certa: quando se trata de crédito habitação, escolher bem vai muito além de comparar números. É, acima de tudo, conhecer a própria realidade e ter clareza sobre o que nos dá tranquilidade.

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Foto de Catarina Brandão

Educadora Financeira – Fundadora do Cat.Poupança

Catarina Brandão

Catarina Brandão dedica-se à promoção da literacia financeira em Portugal. Ajuda famílias a melhorar a gestão do orçamento, a aumentar poupanças e a começar a investir, com uma abordagem clara, rigorosa e prática.

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