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A boca desvia-se para um lado. Um braço perde a força. As palavras saem confusas. Se isto acontecer consigo ou com alguém ao seu lado, não espere para ver se passa: ligue 112 de imediato.
Se está a ler isto porque alguém próximo acabou de ter um Acidente Vascular Cerebral (AVC), guarde esta ideia: a reabilitação começa muito cedo, ainda no hospital, e a avaliação faz-se logo nos primeiros dois dias. Os meses seguintes contam muito.
O AVC ocorre quando uma artéria do cérebro entope ou rebenta, fazendo com que o sangue deixe de chegar a essa zona. Por isso, os sinais aparecem de um momento para o outro. O SNS 24 resume-os em três, que qualquer pessoa consegue verificar em segundos:
| Sinal | O que observar | Como verificar |
|---|---|---|
| Face | A boca ou olho descaídos de um lado | Peça à pessoa para sorrir |
| Força | Um braço ou uma perna com perda de força ou dormente | Peça-lhe para levantar os dois braços ao mesmo tempo |
| Fala | Palavras arrastadas, trocadas ou sem sentido | Converse com ela, faça uma pergunta simples e veja se se faz entender |
Basta um destes sinais para ligar 112.
Há também sinais menos conhecidos que merecem atenção quando surgem de repente:
Imagine que os sintomas aparecem e, alguns minutos depois, desaparecem. A pessoa sente-se bem e a tentação é pensar que foi só um susto. Poderá ser um AIT: Acidente Isquémico Transitório: o sangue deixou de chegar a uma zona do cérebro, mas apenas durante algum tempo.
| AIT | AVC | |
|---|---|---|
| Os sinais | Semelhantes aos do AVC | Face, Força, Fala e outros |
| Quanto duram | Desaparecem sozinhos, muitas vezes em minutos, frequentemente em menos de uma hora | Mantêm-se |
| Deixam marcas? | Por norma não deixa sequelas permanentes | Deixam sequelas na grande maioria das vezes |
| O que fazer | Ligar 112 | Ligar 112 |
Um AIT é muitas vezes um aviso sério. O risco de sofrer um AVC é maior nas 24 a 48 horas seguintes. Além disso, em casa ninguém consegue saber se os sintomas vão passar: essa distinção só é possível no hospital, com exames.
É frequente a ideia de que quase metade das pessoas apresenta sinais uma semana antes de um AVC. Na verdade, a realidade é mais precisa e útil. O número vem de uma análise publicada em 2005 que incluiu 2.416 doentes com AVC isquémico:
Ou seja, o aviso que pode surgir dias antes tem nome: AIT. Se sentir os sinais de um AVC e eles desaparecerem, trate-os como uma urgência.
No AVC, as primeiras horas são as que mais contam! É nesse período que os tratamentos aplicados a tempo são mais eficazes e reduzem a probabilidade de sequelas mais graves.. Ao ligar 112, o INEM pode ativar a Via Verde do AVC e encaminhar a pessoa diretamente para o hospital mais bem preparado para a receber. E não é um cenário raro: em 2025, o INEM sinalizou cerca de 26 suspeitas de AVC por dia em Portugal.
Ao telefone, não precisa de saber termos médicos. Basta algo simples como:
"Acho que o meu pai está a ter um AVC. Tem a boca de lado e não consegue levantar o braço direito. Começou há uns 20 minutos. Estamos na Rua…"
Depois, responda a todas as perguntas que lhe fizerem. É com essa informação que o INEM decide para onde levar a pessoa.
Num momento de aflição, há reações que parecem fazer sentido, mas podem atrasar tudo ou piorar a situação:
| O que apetece fazer | O que deve fazer |
|---|---|
| Esperar para ver se passa | Ligar 112 logo, mesmo que os sintomas melhorem |
| Levar a pessoa de carro ao hospital | Esperar pela ambulância, pois ir pelos próprios meios pode atrasar o tratamento e não é ativada a Via Verde do AVC |
| Dar um copo de água ou um comprimido | Não dar nada. O AVC pode afetar a capacidade de engolir e provocar engasgamento |
Mais de dois terços dos sobreviventes ficam com sequelas. Umas são ligeiras, outras graves; umas passam com o tempo, outras ficam. A maioria pode ser ultrapassada ou gerida, e é por isso que a reabilitação precoce faz tanta diferença.
Segundo o Guia do Sobrevivente AVC e do Cuidador, da associação Portugal AVC, estas são as sequelas mais frequentes:
| Área afetada | O que pode acontecer |
|---|---|
| Movimento | Paralisia ou fraqueza muscular, falta de equilíbrio, descoordenação e espasticidade (músculos rígidos que dificultam vestir, lavar-se ou caminhar) |
| Comunicação | Comunicação Afasia: dificuldade em falar, compreender, ler ou escrever. Ou disartria, quando a fala sai lenta e difícil de perceber |
| Engolir | Disfagia, isto é, dificuldade em comer e beber. Exige atenção, porque a comida pode ir parar aos pulmões e provocar pneumonia |
| Sensibilidade | Dormência, dor, formigueiro ou sensações estranhas de frio, calor ou queimadura |
| Perceção do espaço | A chamada “negligência hemiespacial”: a pessoa pode não dar conta do lado do corpo afetado e não reagir a nada que venha desse lado |
| Controlo urinário | Urgência em urinar, perdas involuntárias ou dificuldade em esvaziar a bexiga |
| Pensamento e memória | Falhas de memória e de concentração, dificuldade em raciocinar, em planear tarefas simples ou em reconhecer pessoas e lugares |
| Cansaço | Um cansaço permanente, que chega depressa em tarefas antes fáceis |
| Humor e comportamento | Depressão e ansiedade, dificuldade em controlar as emoções, passividade ou agressividade |
A depressão e a ansiedade são frequentes depois de um AVC, e a Portugal AVC recomenda estar atento para as detetar e tratar. O mesmo vale para o cansaço. É fácil confundi-lo com preguiça ou desinteresse, sobretudo aos olhos da família, mas é uma sequela como qualquer outra.
Fale com a equipa de saúde se notar tristeza persistente, perda de interesse, irritabilidade ou isolamento, em si ou no seu familiar. Há também o Cheque Cuida-te – Psicologia, que dá acesso a consultas de psicologia comparticipadas.
A reabilitação não fica para depois da alta: começa no hospital. Segundo a norma da DGS, a avaliação deve ser feita nas primeiras 24 a 48 horas. O trabalho arranca assim que a pessoa está estável.
Nos primeiros dias, o objetivo é evitar complicações:
Depois, a recuperação faz-se passo a passo: melhorar a fala, sentar-se, pôr-se de pé, voltar a andar. Pelo caminho, entram vários profissionais:
| Profissional | Em que ajuda |
|---|---|
| Médico de Medicina Física e Reabilitação (Fisiatra) | Coordena a equipa e o plano de reabilitação. É também quem decide, com a família, o regresso a casa |
| Fisioterapeuta | Força, equilíbrio, marcha e coordenação |
| Terapeuta ocupacional | Reaprender tarefas como vestir-se ou comer, adaptar a casa e escolher produtos de apoio |
| Terapeuta da fala | Fala, compreensão e dificuldade em engolir |
| Psicólogo | Memória, atenção e raciocínio, e o impacto emocional do AVC, incluindo a depressão e a ansiedade |
| Enfermeiro de reabilitação | Cuidados diários, posicionamentos e ensino ao doente e à família |
| Nutricionista | Alimentação adequada, sobretudo quando engolir se torna difícil |
| Assistente social | Apoios disponíveis e preparação do regresso a casa, incluindo apoio domiciliário |
A equipa pode incluir outros profissionais, consoante o caso. E se a depressão ou a ansiedade precisarem de tratamento, diga-o ao fisiatra ou ao médico de família: o acompanhamento psicológico é parte da reabilitação, não um extra.
Quando chega a alta, o caminho depende da gravidade do AVC e da idade:
| Situação | Onde continua a reabilitação |
|---|---|
| AVC ligeiro | Em sessões regulares, no hospital ou num centro perto de casa, sem ficar internado |
| AVC moderado antes dos 75 anos, ou grave antes dos 55 com boa condição física | Internado num serviço especializado, com reabilitação intensiva (pelo menos três horas por dia) |
| AVC moderado depois dos 75 anos, ou grave depois dos 55 | Numa unidade de cuidados continuados ou de convalescença, a um ritmo mais leve |
Mas quem decide isto não é a família: é a equipa do hospital que encaminha, conforme a avaliação. O que pode (e deve) fazer é pedir que a pessoa seja vista pelo médico fisiatra ainda durante o internamento, porque é dessa avaliação que depende tudo o resto.
Há também os Centros de Reabilitação, unidades especializadas do SNS. Para lá entrar é preciso uma consulta de avaliação, que qualquer pessoa pode pedir. E, já em casa, é com o médico de família que deve falar: pode manter o programa de reabilitação e encaminhar para clínicas com acordo com o SNS.
Antes de sair do hospital, faça algumas perguntas à equipa. É logo a seguir à alta que muitas pessoas ficam algum tempo sem tratamento e perdem parte do que já tinham conseguido recuperar.
Não há um prazo fixo: a reabilitação pode durar meses ou anos. Mas há momentos que ajudam a perceber o caminho:
| Quando | O que costuma acontecer |
|---|---|
| Primeiros dois dias | Avaliação e, assim que a pessoa está estável, início da reabilitação, ainda no hospital |
| Primeiros três a seis meses | A fase em que acontece a maior parte da recuperação |
| Aos 6 e aos 12 meses | Reavaliações previstas pela DGS e adaptação conforme a necessidade do doente |
| A longo prazo | Os progressos continuam, mais devagar, e o médico de família pode voltar a encaminhar a pessoa para uma consulta de reabilitação se notar perda de capacidades, mais dor ou músculos mais rígidos |
Pelo caminho, é normal surgirem desafios que não se veem: falhas de memória, dificuldade em concentrar-se, tristeza, desânimo ou medo de cair. Não significa falta de vontade de recuperar. Partilhar estas dificuldades com a equipa faz parte do tratamento. Mesmo quando a recuperação não é total, a reabilitação continua a valer a pena e faz a diferença: ajuda a manter a mobilidade e a conquistar mais autonomia no dia a dia.
Se tem o seguro de saúde OneCare, há coberturas que podem ajudar nesta fase, dentro dos limites e copagamentos do plano que contratou:
| Apoio | Como funciona |
|---|---|
| Fisioterapia | Capital de 500€ por ano |
| Assistente de Saúde OneCare | Ajuda a marcar consultas e exames |
| Programa de acompanhamento do idoso | Acompanhamento dos clientes mais velhos na saúde e no bem-estar mental, em qualquer plano |
| Segunda opinião médica internacional | Incluída em todos os planos |
Na App OneCare pode marcar consultas, pedir reembolsos e pedir pré-autorizações. Para saber exatamente o que está incluído no seu caso, consulte as condições do seu seguro.
Quando alguém próximo tem um AVC, a vida da família também muda de um dia para o outro. Algumas atitudes fazem mais diferença do que parece:
E não se esqueça de si. Cuidar cansa, e há apoios pensados para quem cuida:
Se ficarem sequelas permanentes, informe-se sobre o atestado multiusos. Se a pessoa for pensionista e precisar da ajuda de outra para o dia a dia, informe-se também sobre o complemento por dependência. Não está sozinho: a Associação Nacional AVC tem apoio psicológico, serviço social, uma bolsa de cuidadores e um banco de produtos de apoio.
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