Bem-estar

AVC: sinais de alerta e quando começar a reabilitação

7 minutos de leitura
Publicado a 26 outubro 2026
Escrito por Rute Ferreira
Senhor sentado num consultório medico a conversar com um médico

A boca desvia-se para um lado. Um braço perde a força. As palavras saem confusas. Se isto acontecer consigo ou com alguém ao seu lado, não espere para ver se passa: ligue 112 de imediato.

 

Se está a ler isto porque alguém próximo acabou de ter um Acidente Vascular Cerebral (AVC), guarde esta ideia: a reabilitação começa muito cedo, ainda no hospital, e a avaliação faz-se logo nos primeiros dois dias. Os meses seguintes contam muito.

 

 

Os sinais de AVC costumam ser súbitos: a regra dos 3 F's

O AVC ocorre quando uma artéria do cérebro entope ou rebenta, fazendo com que  o sangue deixe de chegar a essa zona. Por isso, os sinais aparecem de um momento para o outro. O SNS 24 resume-os em três, que qualquer pessoa consegue verificar em segundos: 

 

Tabela explicativa dos três principais sinais de um AVC
SinalO que observarComo verificar
FaceA boca ou olho descaídos de um ladoPeça à pessoa para sorrir
ForçaUm braço ou uma perna com perda de força ou dormente Peça-lhe para levantar os dois braços ao mesmo tempo 
FalaPalavras arrastadas, trocadas ou sem sentido Converse com ela, faça uma pergunta simples e veja se se faz entender 

 

Basta um destes sinais para ligar 112.

 

Há também sinais menos conhecidos que merecem atenção quando surgem de repente:

  • Um formigueiro num braço ou numa perna
  • Uma dor de cabeça forte e diferente do habitual
  • Deixar de ver de um lado
  • Perder o equilíbrio sem razão aparente.

 

O que distingue um AIT de um AVC

Imagine que os sintomas aparecem e, alguns minutos depois, desaparecem. A pessoa sente-se bem e a tentação é pensar que foi só um susto. Poderá ser um AIT: Acidente Isquémico Transitório: o sangue deixou de chegar a uma zona do cérebro, mas apenas durante algum tempo.

 

Tabela explicativa das diferenças entre um AIT e um AVC
 AITAVC
Os sinaisSemelhantes aos do AVCFace, Força, Fala e outros
Quanto duramDesaparecem sozinhos, muitas vezes em minutos, frequentemente em menos de uma horaMantêm-se
Deixam marcas?Por norma não deixa sequelas permanentesDeixam sequelas na grande maioria das vezes
O que fazerLigar 112Ligar 112 

 

Um AIT é muitas vezes um aviso sério. O risco de sofrer um AVC é maior nas 24 a 48 horas seguintes. Além disso, em casa ninguém consegue saber se os sintomas vão passar: essa distinção só é possível no hospital, com exames.

 

É frequente a ideia de que quase metade das pessoas apresenta sinais uma semana antes de um AVC. Na verdade, a realidade é mais precisa e útil. O número vem de uma análise publicada em 2005 que incluiu 2.416 doentes com AVC isquémico:

  • Quase um em cada quatro doentes que sofreram AVC já tinham tido sintomas prévios de um AIT
  • Nesse grupo, 43% tiveram AIT na semana anterior ao AVC.

 

Ou seja, o aviso que pode surgir dias antes tem nome: AIT. Se sentir os sinais de um AVC e eles desaparecerem, trate-os como uma urgência.

 

 

O que fazer perante suspeita de AVC: ligar 112, sem esperar

No AVC, as primeiras horas são as que mais contam! É nesse período que os tratamentos aplicados a tempo são mais eficazes e reduzem a probabilidade de sequelas mais graves.. Ao ligar 112, o INEM pode ativar a Via Verde do AVC e encaminhar a pessoa diretamente para o hospital mais bem preparado para a receber. E não é um cenário raro: em 2025, o INEM sinalizou cerca de 26 suspeitas de AVC por dia em Portugal. 

 

Ao telefone, não precisa de saber termos médicos. Basta algo simples como:

 

"Acho que o meu pai está a ter um AVC. Tem a boca de lado e não consegue levantar o braço direito. Começou há uns 20 minutos. Estamos na Rua…"

 

Depois, responda a todas as perguntas que lhe fizerem. É com essa informação que o INEM decide para onde levar a pessoa.

 

Num momento de aflição, há reações que parecem fazer sentido, mas podem atrasar tudo ou piorar a situação:

 

Tabela explicativa de como agir em caso de AVC
O que apetece fazerO que deve fazer
Esperar para ver se passaLigar 112 logo, mesmo que os sintomas melhorem
Levar a pessoa de carro ao hospitalEsperar pela ambulância, pois ir pelos próprios meios pode atrasar o tratamento e não é ativada a Via Verde do AVC
Dar um copo de água ou um comprimidoNão dar nada. O AVC pode afetar a capacidade de engolir e provocar engasgamento

 

Que sequelas pode deixar um AVC 

Mais de dois terços dos sobreviventes ficam com sequelas. Umas são ligeiras, outras graves; umas passam com o tempo, outras ficam. A maioria pode ser ultrapassada ou gerida, e é por isso que a reabilitação precoce faz tanta diferença.

 

Segundo o Guia do Sobrevivente AVC e do Cuidador, da associação Portugal AVC, estas são as sequelas mais frequentes:

 

Tabela explicativa das sequelas de um AVC
Área afetadaO que pode acontecer
MovimentoParalisia ou fraqueza muscular, falta de equilíbrio, descoordenação e espasticidade (músculos rígidos que dificultam vestir, lavar-se ou caminhar)
ComunicaçãoComunicação Afasia: dificuldade em falar, compreender, ler ou escrever. Ou disartria, quando a fala sai lenta e difícil de perceber
EngolirDisfagia, isto é, dificuldade em comer e beber. Exige atenção, porque a comida pode ir parar aos pulmões e provocar pneumonia
SensibilidadeDormência, dor, formigueiro ou sensações estranhas de frio, calor ou queimadura
Perceção do espaçoA chamada “negligência hemiespacial”: a pessoa pode não dar conta do lado do corpo afetado e não reagir a nada que venha desse lado
Controlo urinárioUrgência em urinar, perdas involuntárias ou dificuldade em esvaziar a bexiga
Pensamento e memóriaFalhas de memória e de concentração, dificuldade em raciocinar, em planear tarefas simples ou em reconhecer pessoas e lugares
CansaçoUm cansaço permanente, que chega depressa em tarefas antes fáceis
Humor e comportamentoDepressão e ansiedade, dificuldade em controlar as emoções, passividade ou agressividade

 

A depressão e a ansiedade são frequentes depois de um AVC, e a Portugal AVC recomenda estar atento para as detetar e tratar. O mesmo vale para o cansaço. É fácil confundi-lo com preguiça ou desinteresse, sobretudo aos olhos da família, mas é uma sequela como qualquer outra.

 

Fale com a equipa de saúde se notar tristeza persistente, perda de interesse, irritabilidade ou isolamento, em si ou no seu familiar. Há também o Cheque Cuida-te – Psicologia, que dá acesso a consultas de psicologia comparticipadas.

 

 

Como começa a reabilitação após um AVC: qual o processo

A reabilitação não fica para depois da alta: começa no hospital. Segundo a norma da DGS, a avaliação deve ser feita nas primeiras 24 a 48 horas. O trabalho arranca assim que a pessoa está estável.

 

Nos primeiros dias, o objetivo é evitar complicações:

  • Articulações a ficarem presas
  • Feridas por estar muito tempo deitado
  • Engasgos ao comer.

 

Depois, a recuperação faz-se passo a passo: melhorar a fala, sentar-se, pôr-se de pé, voltar a andar. Pelo caminho, entram vários profissionais:

 

Tabela explicativa dos profissionais que fazem parte do processo de reabilitação
ProfissionalEm que ajuda
Médico de Medicina Física e Reabilitação (Fisiatra)Coordena a equipa e o plano de reabilitação. É também quem decide, com a família, o regresso a casa
FisioterapeutaForça, equilíbrio, marcha e coordenação
Terapeuta ocupacionalReaprender tarefas como vestir-se ou comer, adaptar a casa e escolher produtos de apoio
Terapeuta da falaFala, compreensão e dificuldade em engolir
PsicólogoMemória, atenção e raciocínio, e o impacto emocional do AVC, incluindo a depressão e a ansiedade
Enfermeiro de reabilitaçãoCuidados diários, posicionamentos e ensino ao doente e à família
NutricionistaAlimentação adequada, sobretudo quando engolir se torna difícil
Assistente socialApoios disponíveis e preparação do regresso a casa, incluindo apoio domiciliário

 

A equipa pode incluir outros profissionais, consoante o caso. E se a depressão ou a ansiedade precisarem de tratamento, diga-o ao fisiatra ou ao médico de família: o acompanhamento psicológico é parte da reabilitação, não um extra.

 

Quando chega a alta, o caminho depende da gravidade do AVC e da idade:

 

Tabela explicativa das instituições de reabilitação de acordo com o tipo de AVC
SituaçãoOnde continua a reabilitação
AVC ligeiroEm sessões regulares, no hospital ou num centro perto de casa, sem ficar internado
AVC moderado antes dos 75 anos, ou grave antes dos 55 com boa condição físicaInternado num serviço especializado, com reabilitação intensiva (pelo menos três horas por dia)
AVC moderado depois dos 75 anos, ou grave depois dos 55Numa unidade de cuidados continuados ou de convalescença, a um ritmo mais leve

 

Mas quem decide isto não é a família: é a equipa do hospital que encaminha, conforme a avaliação. O que pode (e deve) fazer é pedir que a pessoa seja vista pelo médico fisiatra ainda durante o internamento, porque é dessa avaliação que depende tudo o resto.

 

Há também os Centros de Reabilitação, unidades especializadas do SNS. Para lá entrar é preciso uma consulta de avaliação, que qualquer pessoa pode pedir. E, já em casa, é com o médico de família que deve falar: pode manter o programa de reabilitação e encaminhar para clínicas com acordo com o SNS.

 

Que perguntas fazer após a alta? 

Antes de sair do hospital, faça algumas perguntas à equipa. É logo a seguir à alta que muitas pessoas ficam algum tempo sem tratamento e perdem parte do que já tinham conseguido recuperar.

  • Onde vai continuar a reabilitação e quando começa?
  • A Equipa de Gestão de Altas já fez o pedido para cuidados continuados, se for o caso?
  • Que exercícios se podem fazer em casa entretanto?
  • É preciso adaptar alguma coisa em casa ou arranjar produtos de apoio?
  • Quando é a próxima consulta?

 

Quanto tempo dura a reabilitação e o que esperar

Não há um prazo fixo: a reabilitação pode durar meses ou anos. Mas há momentos que ajudam a perceber o caminho:

 

Tabela explicativa do tempo da reabilitação
QuandoO que costuma acontecer
Primeiros dois diasAvaliação e, assim que a pessoa está estável, início da reabilitação, ainda no hospital
Primeiros três a seis mesesA fase em que acontece a maior parte da recuperação
Aos 6 e aos 12 mesesReavaliações previstas pela DGS e adaptação conforme a necessidade do doente
A longo prazoOs progressos continuam, mais devagar, e o médico de família pode voltar a encaminhar a pessoa para uma consulta de reabilitação se notar perda de capacidades, mais dor ou músculos mais rígidos 

 

Pelo caminho, é normal surgirem desafios que não se veem: falhas de memória, dificuldade em concentrar-se, tristeza, desânimo ou medo de cair. Não significa falta de vontade de recuperar. Partilhar estas dificuldades com a equipa faz parte do tratamento. Mesmo quando a recuperação não é total, a reabilitação continua a valer a pena e faz a diferença: ajuda a manter a mobilidade e a conquistar mais autonomia no dia a dia.

 

Se tem o seguro de saúde OneCare, há coberturas que podem ajudar nesta fase, dentro dos limites e copagamentos do plano que contratou: 

 

Tabela explicativa das coberturas do seguro de saúde OneCare
ApoioComo funciona
Fisioterapia Capital de 500€ por ano 
Assistente de Saúde OneCare Ajuda a marcar consultas e exames 
Programa de acompanhamento do idoso Acompanhamento dos clientes mais velhos na saúde e no bem-estar mental, em qualquer plano 
Segunda opinião médica internacional Incluída em todos os planos

 

Na App OneCare pode marcar consultas, pedir reembolsos e pedir pré-autorizações. Para saber exatamente o que está incluído no seu caso, consulte as condições do seu seguro. 

 

 

Como apoiar um familiar em reabilitação pós-AVC

Quando alguém próximo tem um AVC, a vida da família também muda de um dia para o outro. Algumas atitudes fazem mais diferença do que parece:

  • Aprenda com a equipa a ajudar a pessoa a levantar-se, a sentar-se e a fazer as tarefas do dia a dia
  • Deixe-a fazer o que consegue sozinha, mesmo que demore o dobro do tempo, porque cada tarefa é treino
  • Liberte a casa de obstáculos, como móveis a mais ou passadeiras e tapetes, para evitar quedas
  • Celebre as pequenas vitórias e esteja atento a sinais de tristeza ou isolamento.

 

E não se esqueça de si. Cuidar cansa, e há apoios pensados para quem cuida:

  • O Estatuto do Cuidador Informal
  • A baixa por assistência a familiar
  • O descanso do cuidador, que pode permitir o internamento temporário do familiar numa unidade de longa duração da rede de cuidados continuados, até 90 dias por ano, para que o cuidador possa descansar, e que se pede através do centro de saúde. 

 

Se ficarem sequelas permanentes, informe-se sobre o atestado multiusos. Se a pessoa for pensionista e precisar da ajuda de outra para o dia a dia, informe-se também sobre o complemento por dependência. Não está sozinho: a Associação Nacional AVC tem apoio psicológico, serviço social, uma bolsa de cuidadores e um banco de produtos de apoio. 

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.
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