01 abr 2021 | 6 min de leitura

 

A medida pode estar a ajudar, mas este benefício é temporário. Saiba como gerir o fim da moratória da sua empresa e como preparar as finanças do seu negócio para o momento em que terá de voltar a pagar as prestações dos seus créditos.

 

As restrições à circulação, o encerramento de certas atividades e a queda abrupta em determinados setores de atividade, como o turismo, deixaram muitas empresas em dificuldades e as moratórias de crédito foram uma das primeiras medidas para fazer face à crise provocada pela pandemia.

 

As moratórias de crédito para empresas têm sido desde a sua aprovação inicial, em março de 2020, sucessivamente prorrogadas e alteradas.

 

Os números das moratórias

 

O impacto das moratórias nas empresas está bem explícito no Relatório de Estabilidade Financeira publicado pelo Banco de Portugal (BdP) em dezembro de 2020.

 

De acordo com a instituição, que recolheu informação junto dos sete maiores grupos bancários que operam em Portugal, 32% do stock de empréstimos a Sociedades Não Financeiras estava em moratória (o que correspondia a 24,4 mil milhões de euros) e cerca de 15% tinha uma garantia pública.

 

Cerca de 20% do crédito em moratória de Pequenas e Médias Empresas (PME) estava coberto por depósitos bancários na mesma instituição (o valor descia para 15% nas grandes empresas).

 

A análise do BdP conclui que “a adesão à moratória de crédito contribuiu para reduzir as necessidades de liquidez das empresas”. Calculava também na altura (ainda antes de ter surgido a nova moratória) que até setembro de 2021 “as prestações devidas e não pagas poderiam ascender a cerca de 15% do stock de empréstimos das empresas”, o que equivalia a cerca de 11 mil milhões de euros.

 

Outro dado interessante é que, “para algumas empresas, o alívio temporário do serviço da dívida proporcionado pela adesão à moratória foi complementado com a contratação de novo crédito, incluindo com garantia pública, para o financiamento da sua atividade corrente”.

 

Esta realidade, complementada pelo recurso a outros apoios, como o layoff, e a linhas de crédito específicas para determinados setores terão levado a que o incumprimento dos empréstimos bancários tenha continuado a descer, tal como acontecia nos últimos anos.

 

Ainda assim, o BdP deixa um alerta. “No momento em que as moratórias de crédito expirarem poderá ocorrer um aumento significativo do incumprimento, em magnitude dependente da duração da pandemia e das outras medidas que estiverem em vigor à data”.

 

Para evitá-lo, é importante que a sua empresa saiba como gerir o fim da moratória. Mesmo que ainda tenha alguns meses de alívio, o ideal será começar, o quanto antes, a preparar o futuro e o momento em que o pagamento do crédito vai ser retomado.

 

Quando terminam as moratórias?

 

Se a sua empresa aderiu, até 31 de março, à moratória aprovada pelo Decreto Lei n.º 107/2020, de 31 de dezembro, beneficia de suspensão no pagamento de juros, de capital ou de ambos durante nove meses.

 

Para os contratos que nunca foram objeto de moratória, o prazo de nove meses é contado a partir da data do pedido de adesão à moratória (exemplo: quem entrar a 15 de fevereiro em moratória vai sair a 15 de novembro).

 

Quem já tinha estado abrangido por uma moratória também teve a oportunidade de voltar a beneficiar deste apoio, desde que este não tivesse ultrapassado os nove meses. Ou seja, o prazo final é a data do pedido adicionado da diferença entre nove meses e o número de meses em que já beneficiou de moratórias.

 

Se a sua empresa já estava a beneficiar de moratórias tem outros prazos.

 

As empresas cujo CAE conste do anexo ao Decreto-Lei n.º 78-A/2020, e que pertencem a setores de atividade em que o impacto económico da economia foi maior, têm acesso a uma prorrogação automática de 12 meses no prazo do seu contrato de crédito a 30 de setembro de 2021. Esta prorrogação é adicional à prorrogação já efetuada relativa ao período da moratória.

Como preparar as finanças para o fim da moratória

 

Embora os prazos sejam diferentes, todas as empresas que recorreram a moratórias terão, mais tarde ou mais cedo, que voltar a pagar os créditos.

 

Para que este “balão de oxigénio” não se transforme num problema, é importante saber gerir o fim da moratória e planear esse retomar dos pagamentos.

 

Assim, e até porque já sabe quando vai chegar esse momento, é essencial planear e tentar antever o que pode acontecer a curto e médio prazo.

 

Como estará a sua empresa na altura de pagar a moratória? É expectável que, nessa altura, as suas vendas tenham aumentado? Ou pelo contrário, não antevê que a faturação volte a um nível que lhe permita fazer face a esta despesa?

 

Poderá simular diversos cenários, dos mais pessimistas até aos mais otimistas, antecipando as entradas e saídas de dinheiro. O importante é preparar, previamente, o que poderá acontecer para poder agir, tomando as decisões mais adequadas tendo como objetivo manter a saúde financeira da sua empresa.

 

Se, além da moratória, aderiu a outras medidas, como os apoios para a manutenção dos postos de trabalho, é importante calcular o peso destas medidas para a tesouraria da sua empresa.

 

Conhecer apoios disponíveis

 

Caso não tenha solicitado outro tipo de apoio, procure saber se existe algum que se adeque à sua empresa e ao qual possa recorrer.

 

Dado o contexto económico atual, são frequentes as alterações e alargamentos a apoios já existentes, bem como a criação de novos. O site do IAPMEI reúne informação sempre atualizada sobre as opções existentes, incluindo em termos de financiamento.

 

No portal da Segurança Social encontra também informação sobre as medidas destinadas a entidades empregadoras, bem como instruções de acesso.

 

Analise as receitas e despesas mensais antes e depois da moratória e tente perceber quais os ajustes que são necessários para que a situação financeira se equilibre ou se mantenha equilibrada.

 

Quanto mais cedo fizer esta análise, mais fácil será proceder a esses ajustes, que podem ir desde relocalizar a empresa, reduzir custos ou renegociar prazos com fornecedores.

 

Recorrer ao financiamento, nomeadamente, através do recurso a linhas de crédito criadas para setores e empresas em dificuldades pode ser uma solução para lidar com as dificuldades que possam surgir.

 

O mais importante em todo este processo é não adiar a planificação sobre a forma como vai gerir o fim da moratória. Se a sua empresa já estiver preparada, será menos difícil.