Finanças

Particulares portugueses que emprestam dinheiro: cuidados a ter

5 minutos de leitura
Publicado a 1 julho 2026
Escrito por Rute Ferreira
Duas colegas de trabalho a conversarem na copa enquanto bebem café

Um empréstimo entre particulares pode ser legal, mas também pode trazer riscos sérios se não for bem formalizado. E quando a proposta vem de alguém desconhecido, encontrado numa rede social, num anúncio online ou num grupo de classificados, o perigo pode ser ainda maior.

 

Neste artigo, saiba que cuidados ter antes de pedir dinheiro emprestado a particulares.

 

 

Pedir dinheiro a particulares é legal?

Sim. Em Portugal, é legal pedir dinheiro emprestado a um particular, seja um familiar, amigo ou outra pessoa singular. Este tipo de acordo é enquadrado no Código Civil como contrato de mútuo, regulado nos artigos 1142.º a 1151.º. Tal significa que uma pessoa empresta dinheiro a outra, que fica obrigada a devolver o mesmo valor, com ou sem juros, conforme o que for combinado.

 

Ainda assim, há regras a cumprir. Segundo o artigo 1143.º do Código Civil, os empréstimos superiores a 2.500 euros devem ser formalizados por documento assinado por quem recebe o dinheiro. Já os empréstimos superiores a 25.000 euros só são válidos se forem feitos por escritura pública ou documento particular autenticado.

 

 

Principais riscos dos empréstimos entre particulares

O maior risco dos empréstimos entre particulares está na informalidade. Quando não há contrato, comprovativos ou condições claras, qualquer desacordo pode transformar-se num problema difícil de resolver.

 

Entre os principais riscos estão:

 

  • Não conseguir provar que o dinheiro foi emprestado
  • Não ficar claro quando e como deve ser feito o pagamento
  • Aceitar juros demasiado altos
  • Entregar bens como garantia sem perceber as consequências
  • Transferir dinheiro antecipadamente para desbloquear um suposto empréstimo
  • Fornecer dados pessoais a alguém desconhecido
  • Agravar uma situação de endividamento já frágil.

 

Mesmo quando o empréstimo é feito entre familiares ou amigos, convém não confiar apenas na palavra. Não por falta de confiança, mas porque o dinheiro pode criar mal-entendidos. Um documento simples, bem escrito e assinado, protege ambas as partes.

 

O risco aumenta bastante quando a proposta vem de desconhecidos. Há esquemas em que o alegado financiador pede primeiro uma “taxa de análise”, “seguro”, “comissão administrativa” ou outro pagamento antecipado. Depois de receber esse valor, desaparece sem conceder qualquer empréstimo. Se a proposta vier de uma entidade ou intermediário, deve confirmar se está autorizada ou registada junto do Banco de Portugal antes de avançar.

 

Também há situações mais graves, como propostas que envolvem cheques pré-datados, transferência de propriedade de imóveis ou automóveis, contratos de compra e venda simulados ou garantias desproporcionadas face ao valor emprestado.

 

 

Quando é obrigatório formalizar o empréstimo?

Mesmo que seja sempre recomendável deixar tudo por escrito, a lei só exige certas formalidades a partir de determinados valores.

 

  • Empréstimos superiores a 2.500 euros: o contrato de mútuo deve ser feito por escrito e assinado por quem recebe o dinheiro
  • Valores superiores a 25.000 euros: só é válido se for celebrado por escritura pública ou documento particular autenticado
  • Abaixo dos 2.500 euros: a lei não impõe a mesma formalidade, mas continua a ser prudente fazer um documento simples, com a identificação das partes, o valor emprestado, o prazo de pagamento e a indicação de haver, ou não, juros.

 

Se forem cobrados juros, estes não podem ser abusivos. Em 2026, a taxa legal dos juros civis mantém-se nos 4% (Artigo 559.º do Código Civil e Portaria n.º 291/2003, de 8 de abril), e os juros num contrato de mútuo não devem ultrapassar os limites previstos na lei. Além disso, quando há juros, podem existir implicações fiscais, nomeadamente em IRS e Imposto do Selo, pelo que, em valores relevantes, convém confirmar o enquadramento junto da Autoridade Tributária ou de um profissional qualificado.

 

 

Como reconhecer sinais de burla?

Nem todas as propostas de empréstimos particulares são burlas, mas há sinais que devem fazer parar imediatamente.

 

Desconfie se a pessoa ou entidade:

 

  • Promete dinheiro rápido, sem análise e sem qualquer documentação
  • Diz que aprova crédito mesmo com incumprimentos registados
  • Pede dinheiro antes de transferir o empréstimo
  • Exige pagamento de seguros, taxas ou comissões antecipadas
  • Comunica apenas por redes sociais, WhatsApp ou email sem identificação clara
  • Recusa encontrar-se presencialmente ou fornecer dados verificáveis
  • Apresenta contratos com erros, cláusulas confusas ou espaços em branco
  • Pede cópias de documentos pessoais sem explicar para que serão usados
  • Exige cheques pré-datados
  • Propõe passar um imóvel ou automóvel para seu nome como garantia.

 

A expressão “crédito fácil” deve ser sempre vista com cautela. Quando alguém garante uma solução imediata para quem já não consegue obter crédito nos canais tradicionais, pode estar a aproveitar-se de uma situação de fragilidade.

 

Novamente, se a proposta vier de uma empresa, intermediário ou alegada entidade financeira, consulte o site do Banco de Portugal e confirme se está autorizada. Se não encontrar registo, não avance.

Como fazer um contrato de mútuo com segurança?

Um contrato de mútuo não precisa de ser escrito numa linguagem complicada, mas deve ser claro. O objetivo é evitar dúvidas sobre o que foi combinado.

 

Sempre que possível, o contrato deve incluir:

 

  • Identificação completa de quem empresta e de quem recebe o dinheiro
  • Número de identificação fiscal de ambas as partes
  • Valor emprestado
  • Data da entrega do dinheiro
  • Forma de entrega, de preferência por transferência bancária
  • Prazo de reembolso
  • Plano de pagamentos, se o valor for devolvido em prestações
  • Indicação expressa de que há, ou não, juros
  • Taxa de juro aplicável, quando exista
  • Consequências em caso de atraso
  • Eventuais garantias, se forem acordadas
  • Assinatura das partes.

 

Mesmo nos casos em que a lei não exige escritura pública ou documento autenticado, pode ser útil reconhecer assinaturas, sobretudo quando o valor é significativo.

 

Deve ainda evitar pagamentos em dinheiro vivo. A transferência bancária deixa rasto, permite comprovar a data e o valor entregue e pode ser útil se surgir um conflito.

 

Também não deve:

 

  • Assinar documentos em branco
  • Aceitar cláusulas que não compreende
  • Entregar cheques pré-datados. 

 

Se houver garantias envolvidas, como imóveis, automóveis ou outros bens de valor elevado, procure aconselhamento jurídico antes de assinar.

 

 

Alternativas mais seguras

Antes de recorrer a particulares portugueses que emprestam dinheiro, vale a pena perceber se existem opções mais seguras, reguladas e adequadas à situação financeira.

 

Crédito pessoal em instituição autorizada

Se precisa de financiamento, a primeira opção deve ser uma instituição autorizada a conceder crédito. Bancos, instituições financeiras e algumas entidades especializadas estão sujeitas a regras, supervisão e deveres de informação ao consumidor.

 

Isto não significa que o crédito seja sempre aprovado, nem que seja sempre a melhor solução. Mas permite comparar propostas, conhecer a TAEG, o MTIC, os prazos, os encargos e as condições antes de decidir.

 

Renegociação de dívidas

Se o problema não é apenas uma despesa pontual, mas a dificuldade em pagar créditos já existentes, pedir novo dinheiro emprestado pode agravar a situação.

 

Nestes casos, pode fazer mais sentido falar com a instituição de crédito e tentar renegociar condições, como prazo, prestação ou plano de pagamento. Quando há risco de incumprimento, existem mecanismos como o PARI, que obriga as instituições a acompanhar clientes em risco e a avaliar soluções adequadas.

 

Se já existirem prestações em atraso, pode aplicar-se o PERSI, um procedimento extrajudicial que procura regularizar a situação antes de avançar para soluções mais gravosas.

 

Apoio familiar formalizado

Pedir ajuda a familiares pode ser uma alternativa menos onerosa, sobretudo se não forem cobrados juros. Ainda assim, deve ser tratado com seriedade.

 

Mesmo entre pessoas próximas, o ideal é formalizar o acordo por escrito. Isso evita dúvidas, protege a relação pessoal e mostra respeito por quem empresta e por quem recebe.

 

Um empréstimo familiar pode ser simples, mas deve deixar claro quanto foi emprestado, quando será devolvido e se há ou não juros.

 

Aconselhamento financeiro

Quando já existe sobre-endividamento, o mais importante pode não ser encontrar mais crédito, mas reorganizar a situação.

 

Os clientes bancários com dificuldades em pagar créditos podem recorrer à Rede de Apoio ao Cliente Bancário (RACE), que presta informação, aconselhamento e acompanhamento. Também existem associações de defesa do consumidor que ajudam a analisar dívidas, negociar com credores e evitar decisões precipitadas.

 

Pedir ajuda cedo pode evitar que uma dificuldade temporária se transforme num problema maior.

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.
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