Finanças

De aforradores a investidores: porque precisamos de falar mais sobre dinheiro

7 minutos de leitura
Atualizado a 2 setembro 2026
Escrito por Rute Ferreira
foto de Bárbara Barroso

Falar sobre dinheiro ainda não é natural para todos. Mas a forma como poupamos, investimos e tomamos decisões financeiras pode fazer diferença no património que conseguimos construir ao longo da vida.

 

Foi precisamente sobre dinheiro, investimento e literacia financeira que Bárbara Barroso, especialista em finanças pessoais, investidora e fundadora da MoneyLab, conversou no Capital de Ideias, um webcast do Jornal PT50 com o apoio do Santander.

 

Da educação financeira nas escolas ao crédito habitação, passando pela inteligência artificial e pela sua própria relação com o dinheiro, estas são algumas das ideias que deixou na conversa.

 

 

A literacia financeira deve começar cedo

MoneyLab, nasceu com um objetivo muito concreto: levar a educação financeira aos mais jovens.

 

O projeto começou por trabalhar com crianças e jovens e só mais tarde chegou ao público adulto. Ao longo desse percurso, Bárbara Barroso conta ter trabalhado com pessoas dos 5 ou 6 anos até mais de 90.

 

É precisamente essa experiência que sustenta uma das posições que defende há vários anos: aprender a lidar com o dinheiro deve começar cedo.

 

“Para mim, devia estar desde a primeira classe, primeiro ano.”

 

Para Bárbara Barroso, trabalhar hábitos financeiros desde criança pode contribuir para formar adultos mais preparados para tomar decisões sobre o seu dinheiro.

 

Apesar de já existirem projetos de educação financeira nas escolas, nomeadamente no âmbito da cidadania, considera que ainda há caminho a percorrer. E dá um exemplo muito próximo: os próprios filhos, que frequentam o terceiro ciclo e o ensino secundário, nunca tiveram educação financeira na escola.

 

Uma situação que classifica como quase irónica, tendo em conta a sua atividade profissional, mas que também revela que o acesso a este tipo de aprendizagem ainda não é transversal.

 

 

De aforradores a investidores: o que ainda falta mudar em Portugal

Se hoje se fala mais de literacia financeira do que há 10 ou 20 anos, isso não significa necessariamente que os portugueses estejam mais preparados para investir.

 

“Há mais informação, não necessariamente mais preparação.”

 

Na leitura de Bárbara Barroso, Portugal continua muito ligado à cultura da poupança. Ou, como resume durante a conversa, continua a ser “um país de poupadores e não um país de investidores”.

 

Poupar não é, naturalmente, o problema. A questão está em perceber que poupar e construir património não são exatamente a mesma coisa. Se o retorno obtido não superar a inflação, explica, o dinheiro não está efetivamente a gerar riqueza.

 

É esta mentalidade que procura ajudar a transformar: passar de uma cultura centrada apenas no aforro para outra em que o investimento também seja encarado como uma ferramenta de construção de património.

 

E há um mito que, na sua opinião, continua a afastar muitas pessoas do investimento: a ideia de que é necessário ter muito dinheiro para começar.

 

“Investir não é para ricos, mas se almejamos ser ricos temos que investir.”

 

A complexidade da linguagem financeira também pode funcionar como barreira e alimentar a sensação de que investir “não é para mim”.

 

Por isso, se tivesse apenas um conselho para deixar aos portugueses, seria simples: criar o hábito de poupar e investir, mesmo que seja com pouco.

 

“Não fazer nada tem um custo, tem um custo enorme. E não fazer nada é uma decisão.”

 

 

A relação de Bárbara Barroso com o dinheiro e o investimento

Apesar de hoje dedicar grande parte da sua vida profissional à literacia financeira, Bárbara Barroso cresceu numa época em que falar abertamente sobre dinheiro não era propriamente habitual.

 

Só depois dos 40 anos soube quanto é que o pai ganhava.

 

“Sou de uma geração que não se pergunta a idade às senhoras e não se pergunta de dinheiro”, recorda.

 

Isso não significa que não existissem referências financeiras em casa. O pai investia em bolsa e, ainda adolescente, Bárbara já tinha algum contacto com conceitos como ações e mais-valias. Ainda assim, sentia que dinheiro e negócios pertenciam à “mesa dos adultos”.

 

Dos avós vieram outros ensinamentos: guardar, esperar, poupar e não viver acima das possibilidades.

 

E há uma história que continua a recordar.

 

Aos 9 anos, ajudou a avó, que era empresária, e recebeu 1.000 escudos. Trocou o dinheiro por várias notas mais pequenas para lhe parecer que tinha ainda mais e, pouco depois, entrou num café com a mãe e disse-lhe para escolher um gelado porque, dessa vez, era ela que pagava.

 

“Aquilo marcou-me porque eu percebi o poder e a liberdade quando nós tínhamos o nosso próprio dinheiro.”

 

Décadas depois, essa relação com o dinheiro evoluiu para uma estratégia de investimento assente em três pilares: negócios, bolsa e imobiliário.

 

No imobiliário, investe em arrendamento de curta e longa duração e em projetos de remodelação. Na bolsa, mantém um portefólio diversificado, embora com uma exposição significativa a ações por opção. E, além da MoneyLab, participa no capital de outros negócios.

 

Entre os três, admite que a bolsa é a área que mais a entusiasma e onde concentrou maior especialização.

 

Mas há um critério que atravessa toda a sua gestão financeira: estar confortável com o risco assumido.

 

Bárbara conta que consegue passar um ou dois meses sem olhar para determinados investimentos sem que isso lhe tire o sono. Quando sente necessidade de monitorizar constantemente uma posição porque está desconfortável, reconhece aí um sinal de alerta relativamente ao nível de risco assumido.

 

 

Inteligência artificial nos investimentos: apoio sim, decisão não

A inteligência artificial já faz parte das ferramentas utilizadas por Bárbara Barroso na área dos investimentos, mas não para decidir onde investir.

 

A utilização acontece sobretudo ao nível de research, por exemplo, para resumir grandes volumes de informação ou apoiar determinadas análises.

 

Isso não significa, porém, confiar cegamente nos resultados.

 

Bárbara conta já ter encontrado erros em dados e cálculos produzidos por ferramentas de inteligência artificial, o que reforçou a necessidade de conferir a informação antes de a utilizar.

 

“Nunca para tomar a decisão. [...] Tem sempre de haver um especialista, um humano, a validar aqueles dados.”

 

Na sua perspetiva, a transformação provocada pela inteligência artificial é muito mais ampla do que a utilização de ferramentas como assistentes de texto. Compara, aliás, o momento atual ao aparecimento da Internet e considera que esta evolução vai obrigar muitas empresas a adaptar processos e modelos de negócio.

 

Uma transformação que também interessa aos investidores. Afinal, quem investe em bolsa está a investir em empresas e a evolução dos negócios acaba por se refletir no seu desempenho e, consequentemente, nos investimentos.

 

 

Crédito habitação: como escolher entre taxa fixa, variável ou mista

Quando a conversa chega ao crédito habitação, Bárbara Barroso começa por afastar uma única resposta.

 

“Essa decisão de taxa fixa, variável ou mista é muito pessoal.”

 

A taxa fixa oferece previsibilidade, uma característica que pode ser particularmente relevante para famílias com orçamentos mais limitados e pouca margem para acomodar oscilações da prestação.

 

Essa previsibilidade deve, contudo, ser ponderada em conjunto com o custo associado e com o comportamento das taxas de juro.

 

Já a taxa variável pode ser mais interessante num ambiente de descida das taxas de juro, embora implique menor previsibilidade.

 

Bárbara chama ainda a atenção para quem pretende renegociar ou amortizar antecipadamente o crédito habitação, já que as comissões associadas devem ser consideradas na comparação entre modalidades.

 

Por sua vez, a taxa mista tem ganho popularidade ao combinar um período de taxa fixa com outro de taxa variável.

 

Mais do que procurar uma solução universal, o importante é perceber qual se adapta melhor ao orçamento e ao risco que cada família está disposta a assumir.

 

“É importante que cada agregado familiar se sinta confortável com essa decisão.”

 

 

Concentrar os produtos financeiros num banco ou diversificar?

Contas, cartões, poupanças e outros produtos todos na mesma instituição ou distribuídos por diferentes bancos?

 

Também aqui Bárbara Barroso evita respostas absolutas.

 

Concentrar vários produtos numa só instituição pode tornar a gestão mais simples. Já procurar diferentes soluções no mercado pode permitir encontrar condições mais adequadas para cada necessidade.

 

Há quem esteja constantemente à procura da opção mais barata e quem, pelo contrário, valorize a conveniência de ter tudo mais concentrado, mesmo que isso possa implicar um custo diferente.

 

“Tudo tem custo-benefício.”

 

Mais importante do que escolher uma das duas estratégias é, para Bárbara, fazê-lo de forma consciente e informada, evitando que a permanência numa instituição resulte apenas de inércia.

 

A literacia financeira pode, aliás, beneficiar também o próprio mercado. Um consumidor mais informado consegue avaliar melhor as propostas que encontra e reconhecer o valor que cada uma lhe oferece.

 

 

As escolhas financeiras de Bárbara Barroso

Para terminar, uma ronda de “isto ou aquilo” obrigou Bárbara Barroso a escolher rapidamente entre algumas alternativas:

  • Poupar ou investir? Poupar para investir. Mas, tendo de escolher, investir
  • ETF ou imóvel? Ambos, mas ETF
  • Cartão de crédito ou débito? Débito
  • Casa própria ou arrendar? Casa própria, tendo em conta o contexto português
  • Experiências ou património? Património para poder usufruir de experiências
  • Mais dinheiro ou mais tempo? Mais tempo
  • Excel ou aplicação de finanças? Excel
  • Qualidade ou preço? Qualidade
  • Fundo de emergência ou investir tudo? Fundo de emergência
  • Rendimento passivo ou negócio próprio? Um negócio próprio para ter rendimento passivo
  • Jantar fora ou cozinhar em casa? Depende dos dias, mas jantar fora.

 

Há uma das respostas que Bárbara não hesita em enquadrar como prioridade: antes de pensar em investir tudo, o fundo de emergência deve ser o primeiro patamar da poupança.

 

E perante uma última hipótese, bastante mais improvável, a resposta também surpreende pela simplicidade.

 

O que faria se recebesse 50 milhões de euros?

 

Mudaria pouco, garante.

 

Bárbara diz ter o privilégio de gostar daquilo que faz e admite que parte desse capital provavelmente seria canalizada para projetos que ainda gostaria de concretizar.

 

Mais do que perseguir um determinado montante, é o impacto da educação financeira que destaca.

 

“A educação financeira rompe a pobreza entre gerações e nós vemos isso acontecer todos os dias.”

 

E, mesmo com 50 milhões de euros na conta, há uma ambição que permaneceria: continuar a desenvolver projetos capazes de ter impacto em Portugal.

 

 

Veja a conversa completa no Capital de Ideias:

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.
Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.

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