Finanças

Posso pedir crédito habitação sem entrada?

5 minutos de leitura
Publicado a 16 julho 2026
Escrito por Rute Ferreira
Senhora sentada no chão da sua nova casa rodeada de caixas de mudanças

Comprar casa sem ter dinheiro para a entrada é uma das dúvidas mais comuns de quem começa a procurar imóvel. 

 

Neste artigo, explicamos o que significa pedir crédito habitação sem entrada, quando é possível e que cuidados deve ter antes de avançar.

 

 

O que significa "crédito habitação sem entrada"?

Pedir crédito habitação sem entrada significa comprar uma casa sem ter de pagar, com capitais próprios, a parte do valor do imóvel que o banco não financia.

 

Na maioria dos casos, quando alguém compra uma casa para habitação própria permanente, o banco pode financiar até 90% do valor considerado para efeitos de crédito. Os restantes 10% têm de ser pagos pelo comprador, normalmente no momento da escritura ou de acordo com o que ficar previsto no contrato-promessa de compra e venda.

 

Por exemplo, se uma casa custar 200.000 euros e o banco financiar 90%, o empréstimo poderá ir até 180.000 euros. Os restantes 20.000 euros correspondem à entrada.

 

Mas há um ponto importante: crédito habitação sem entrada não significa comprar casa sem qualquer custo inicial. Mesmo quando há financiamento a 100%, podem existir outros encargos, como avaliação do imóvel, comissões bancárias, escritura, registos, seguros e impostos.

No caso dos jovens até aos 35 anos, a isenção de IMT e Imposto do Selo pode ajudar a reduzir alguns destes custos, embora se aplique até determinados limites de valor do imóvel. Não elimina necessariamente todas as despesas associadas à compra. 

 

 

A regra do Banco de Portugal: até 90% do valor do imóvel

A regra geral do Banco de Portugal estabelece que, nos créditos para habitação própria permanente, o rácio LTV, ou seja, a relação entre o valor do empréstimo e o valor do imóvel dado em garantia, deve ser igual ou inferior a 90%.

 

Isto significa que o banco não olha apenas para o preço de compra. O valor considerado é, em regra, o menor entre:

 

  • O preço de aquisição do imóvel
  • O valor da avaliação feita pelo banco.

 

Imagine que compra uma casa por 220.000 euros, mas a avaliação do banco é de 210.000 euros. Neste caso, o financiamento máximo de 90% pode ser calculado sobre os 210.000 euros, e não sobre os 220.000 euros. Ou seja, o valor máximo de crédito poderá ser 189.000 euros, obrigando o comprador a suportar a diferença.

 

Para créditos com outras finalidades, como segunda habitação ou investimento, o limite prudencial é mais baixo, podendo ir até 80%. Já nos imóveis detidos pelas próprias instituições financeiras e em contratos de locação financeira imobiliária, o financiamento pode chegar aos 100%.

 

 

Quando é possível pedir crédito habitação a 100%?

Embora a regra geral aponte para os 90% na habitação própria permanente, há situações em que pode existir financiamento a 100%.

 

Imóveis do banco ou da carteira própria da instituição

Uma das situações em que pode ser possível pedir crédito habitação sem entrada é a compra de imóveis detidos pelo próprio banco, também conhecidos como imóveis de carteira própria ou REO.

 

Nestes casos, a recomendação do Banco de Portugal admite um rácio LTV até 100%. Ainda assim, isto não significa que o financiamento seja automaticamente aprovado. O banco continua a avaliar a capacidade financeira do cliente, os rendimentos, a estabilidade profissional, a taxa de esforço, o historial de crédito e o risco da operação.

 

Ou seja, comprar um imóvel do banco pode abrir a porta a financiamento total, mas não dispensa a análise de risco nem garante aprovação.

 

Garantia Pública para jovens até aos 35 anos

Outra possibilidade é a Garantia Pública do Estado, criada para facilitar o acesso dos jovens à compra da primeira habitação própria permanente.

 

Com esta garantia, o Estado pode atuar como fiador de uma parte do empréstimo, permitindo que o banco financie até 100% do valor da transação do imóvel. A garantia do Estado pode cobrir até 15% desse valor de transação, precisamente a parte que, em muitos casos, corresponderia à entrada. 

 

No entanto, a Garantia Pública não é um “cheque” entregue ao comprador. É uma garantia dada ao banco. O jovem continua responsável pelo pagamento integral do crédito e, se entrar em incumprimento, continua responsável pela dívida: além do que permanecer em dívida ao banco, terá de reembolsar ao Estado os valores que este tenha pago ao abrigo da garantia. 

Crédito habitação sem entrada para jovens até aos 35 anos

Para os jovens até aos 35 anos, comprar casa sem entrada tornou-se mais viável com a Garantia Pública. Mas há várias condições a cumprir.

 

Em termos gerais, para beneficiar deste regime, é necessário:

 

  • Ter entre 18 e 35 anos, inclusive
  • Ter domicílio fiscal em Portugal
  • Comprar a primeira habitação própria permanente
  • Não ser proprietário de outro imóvel habitacional
  • Não ter beneficiado anteriormente da Garantia Pública
  • Ter um rendimento coletável que não ultrapasse o limite superior do 8.º escalão de IRS 
  • Ter a situação fiscal e contributiva regularizada
  • Comprar um imóvel cujo valor de transação não exceda 450.000 euros
  • Celebrar o contrato de crédito até 31 de dezembro de 2026
  • Recorrer a uma instituição aderente ao regime.

 

Há ainda uma condição muito importante: todos os compradores do imóvel têm de ser mutuários do crédito e todos têm de cumprir os requisitos de elegibilidade.

 

A Garantia Pública também pode ser acumulada com a isenção de IMT e Imposto do Selo para jovens até aos 35 anos, desde que sejam cumpridas as condições próprias de cada regime. 

 

Saiba mais sobre como conseguir crédito habitação jovem com 100% de financiamento.

 

 

Crédito habitação sem entrada para quem não é jovem: é possível?

Para quem tem mais de 35 anos, ou não cumpre os requisitos da Garantia Pública, comprar casa sem entrada torna-se mais difícil. Não quer dizer que seja impossível, mas as opções são bastante mais limitadas.

 

Como vimos, uma das exceções pode estar nos imóveis detidos pelas próprias instituições financeiras, quando o banco admite financiamento até 100%. Ainda assim, esta possibilidade não depende apenas de o imóvel estar na carteira do banco. A instituição continua a avaliar o perfil financeiro do cliente, os rendimentos, a estabilidade profissional, a taxa de esforço e o risco da operação.

 

Fora destes casos, a regra habitual é o comprador ter de assegurar uma entrada. Para habitação própria permanente, essa entrada tende a corresponder, pelo menos, à parte que o banco não financia, podendo ser superior se a avaliação do imóvel ficar abaixo do preço de compra.

 

 

Crédito habitação sem entrada: vantagens e riscos

Pedir crédito habitação sem entrada pode ajudar quem tem rendimento estável, mas ainda não conseguiu juntar poupanças suficientes. A principal vantagem é permitir comprar casa mais cedo e manter alguma liquidez para despesas como mudança, obras, mobiliário ou imprevistos.

 

Ainda assim, há riscos a considerar:

 

  • Prestação mais elevada: ao financiar 100% do valor da casa, o montante em dívida é maior, o que pode aumentar a prestação mensal e o custo total do crédito
  • Menor margem de segurança: nos primeiros anos, a dívida pode continuar muito próxima do valor do imóvel. Se a casa desvalorizar ou tiver de ser vendida rapidamente, o valor da venda pode não chegar para liquidar o empréstimo
  • Responsabilidade do comprador: no caso da Garantia Pública, a garantia protege sobretudo o banco. Se o Estado for chamado a pagar parte da dívida, o cliente continua responsável pelos valores em dívida perante o banco e perante o Estado
  • Custos iniciais na mesma: mesmo sem entrada, podem existir despesas com avaliação, escritura, registos, seguros, comissões e impostos, quando aplicáveis.

 

Antes de avançar, vale a pena confirmar se a prestação cabe confortavelmente no orçamento, se existe margem para subidas de juros ou perda de rendimento, e se há poupanças para custos que não estejam cobertos pelo financiamento.

 

Comprar casa sem entrada pode ser possível, mas deve ser uma decisão feita com contas realistas, e não apenas com base no valor máximo que o banco está disposto a financiar.

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.
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