Finanças

IA para gerir finanças: como usar a inteligência artificial no dia a dia

8 minutos de leitura
Publicado a 31 agosto 2026
Escrito por Rute Ferreira
Mulher jovem sentada na mesa da cozinha a organizar despesas no computador e telemóvel

A utilização da inteligência artificial na gestão financeira já é uma realidade em vários mercados. Segundo o Global Banking Annual Review 2025, da McKinsey, 51% dos mais de 30.000 consumidores inquiridos em sete países utilizavam ferramentas de IA generativa e 23% recorriam-lhes para atividades bancárias ou financeiras. Compreender produtos financeiros, procurar informação sobre investimentos e comparar bancos estavam entre as utilizações mais frequentes 

 

 

O que muda com a IA na gestão financeira pessoal

A inteligência artificial permite automatizar algumas tarefas da gestão financeira, como categorizar movimentos, resumir despesas, criar orçamentos ou comparar produtos.

 

Também consegue analisar grandes volumes de informação e identificar padrões que podem passar despercebidos numa análise manual.

 

Ainda assim, os resultados dependem dos dados fornecidos. Se estiverem incompletos ou desatualizados, as conclusões podem ser incorretas. Além disso, algumas funcionalidades apresentadas como IA limitam-se a aplicar regras automáticas simples.

 

 

Principais aplicações práticas da IA nas finanças

As ferramentas disponíveis não funcionam todas da mesma forma. Algumas estão integradas nas aplicações dos bancos, outras pertencem a plataformas especializadas e outras são assistentes generalistas, como o ChatGPT.

 

A escolha deve depender da tarefa que pretende realizar e do tipo de informação a que a ferramenta terá acesso.

 

Controlar despesas e criar um orçamento

Uma das aplicações mais comuns da IA para gerir finanças é a análise dos gastos mensais.

 

Algumas apps de IA para controlar gastos conseguem:

  • Classificar movimentos por categorias
  • Comparar as despesas com meses anteriores
  • Assinalar aumentos fora do habitual
  • Identificar pagamentos recorrentes
  • Emitir alertas quando determinado orçamento está próximo do limite.

Também pode utilizar um assistente de IA sem o ligar à conta bancária. Basta fornecer uma lista anonimizada de rendimentos e despesas e pedir ajuda para organizar o orçamento.

 

Por exemplo:

 

Tenho um rendimento líquido de 1.500 euros, 700 euros de despesas fixas e cerca de 400 euros de despesas variáveis. Cria um orçamento mensal e apresenta três possibilidades de poupança.

 

Confirme sempre os cálculos e inclua despesas menos frequentes, como seguros, impostos ou manutenção da casa.

 

Identificar despesas recorrentes e oportunidades de poupança

A IA também pode encontrar padrões repetidos nos movimentos financeiros.

Uma aplicação pode, por exemplo, identificar várias mensalidades de plataformas digitais ou detetar que uma determinada despesa aumentou durante vários meses consecutivos.

 

Isso não significa que todas essas despesas devam ser eliminadas. A ferramenta apenas ajuda a reuni-las e a medir o respetivo impacto no orçamento.

 

Pode pedir à IA que:

  • Some o custo anual das subscrições
  • Mostre quais as categorias que mais aumentaram
  • Simule o impacto de reduzir uma despesa
  • Calcule quanto poderá acumular ao poupar determinado valor todos os meses.

Por exemplo, uma despesa mensal de 20 euros representa 240 euros ao longo de um ano. A IA pode fazer rapidamente este tipo de simulação, mas a decisão de manter ou eliminar o serviço deve continuar a considerar a sua utilidade.

 

Planear objetivos financeiros

Criar um fundo de emergência, pagar uma dívida ou juntar dinheiro para uma viagem são objetivos que podem ser transformados em planos mensais.

 

Depois de indicar o valor pretendido, o prazo e a capacidade mensal de poupança, a IA pode apresentar diferentes cenários.

 

Imagine que pretende juntar 3.000 euros em 18 meses. A ferramenta pode calcular quanto teria de reservar mensalmente, mostrar o efeito de começar com um montante já poupado e simular o que acontece se houver um mês em que não consiga fazer a transferência prevista.

 

Estas projeções não garantem que o objetivo será alcançado. Servem para perceber se o prazo é realista e que margem existe para acomodar imprevistos.

 

Comparar produtos e propostas financeiras

A inteligência artificial pode ajudar a organizar informações sobre contas bancárias, depósitos, créditos, seguros ou outros produtos.

 

Em vez de perguntar apenas “qual é a melhor proposta?”, peça uma comparação baseada em critérios concretos, como:

  • Comissões
  • Taxas de juro
  • TAEG
  • MTIC
  • Prazo
  • Penalizações
  • Condições de acesso
  • Necessidade de contratar outros produtos
  • Possibilidade de mobilização antecipada.

Pode ainda pedir que a informação seja apresentada numa tabela ou que determinados conceitos sejam explicados em linguagem mais simples.

 

Contudo, a comparação deve ser feita com base nos documentos atuais fornecidos pelas instituições. No crédito à habitação, por exemplo, deve confirmar os dados na Ficha de Informação Normalizada Europeia. Noutros produtos bancários, consulte a informação pré-contratual, o preçário e as condições gerais aplicáveis.

 

A IA não deve preencher lacunas com valores presumidos nem substituir a leitura desses documentos.

Compreender conceitos financeiros

O ChatGPT e outros assistentes generalistas podem ser úteis para explicar conceitos como Euribor, TAN, TAEG, juros compostos, capitalização, diversificação ou perfil de risco.

 

Também pode pedir exemplos adaptados ao seu nível de conhecimento:

  • Explica a diferença entre TAN e TAEG a uma pessoa que está a comparar dois créditos pela primeira vez.
  • Mostra como funciona o juro composto através de um exemplo simples, sem recomendar qualquer investimento.

A vantagem está na possibilidade de fazer perguntas adicionais até o tema ficar mais claro. Ainda assim, confirme informação legal, fiscal ou contratual em fontes oficiais, sobretudo quando as regras ou os valores possam ter sido alterados.

 

Apoiar decisões de investimento

A IA pode explicar produtos, reunir informação e ajudar a preparar perguntas, mas não deve ser a única base para investir. As ferramentas generalistas podem apresentar informação incorreta, incompleta ou desatualizada e não estão sujeitas às mesmas obrigações de uma entidade financeira autorizada.

 

Os robo-advisors utilizam dados sobre os objetivos e o perfil de risco do cliente para propor ou gerir carteiras. Quando prestam consultoria para investimento ou gestão de carteiras, devem cumprir as regras aplicáveis, incluindo a avaliação da adequação do serviço ao cliente.

 

Antes de aderir, confirme se a entidade está autorizada ou registada junto da CMVM ou de outra autoridade competente da União Europeia.

 

Detetar movimentos fora do habitual

Os bancos e outros prestadores financeiros podem utilizar sistemas de inteligência artificial para identificar operações que se afastam do comportamento normal de um cliente.

 

Um pagamento efetuado num país diferente, várias tentativas consecutivas ou uma transferência de valor pouco habitual podem originar um alerta ou uma verificação adicional.

 

Estes sistemas ajudam a detetar possíveis fraudes, mas não impedem todas as operações não autorizadas. O cliente deve continuar a verificar regularmente os movimentos, proteger as credenciais de acesso e contactar de imediato a instituição quando identificar algo suspeito.

 

 

Vantagens de usar IA para ajudar na gestão do dinheiro

A inteligência artificial pode ser útil mesmo para quem já utiliza um orçamento ou acompanha regularmente os movimentos bancários.

 

Entre as principais vantagens encontram-se:

  • Menos trabalho manual: permite organizar movimentos, somar despesas e criar resumos em menos tempo
  • Maior visibilidade: reúne informação dispersa e ajuda a perceber onde está a ser gasto o dinheiro
  • Simulação de cenários: mostra o possível impacto de aumentar a poupança, reduzir uma despesa ou alterar um prazo
  • Explicações adaptadas: permite pedir versões mais simples ou detalhadas do mesmo conceito
  • Alertas mais relevantes: algumas ferramentas identificam alterações em relação ao padrão habitual
  • Apoio à preparação de decisões: ajuda a organizar perguntas e critérios antes de falar com o banco ou com outro profissional.

A utilidade da IA não está, portanto, em entregar o controlo total do dinheiro a um sistema automático. Está em reduzir o tempo dedicado a tarefas mecânicas e melhorar a informação disponível para decidir.

 

 

Riscos e cuidados a ter

A facilidade de utilização pode levar a uma confiança excessiva nos resultados. Antes de seguir uma recomendação, confirme como foi produzida, que dados foram utilizados e se a informação está atualizada.

  • Respostas erradas ou desatualizadas: uma ferramenta de IA pode apresentar informação incorreta com um tom convincente, utilizar valores antigos ou confundir regras de diferentes países. Confirme sempre informação sobre fiscalidade, crédito, investimentos, Segurança Social, proteção de depósitos ou legislação em fontes oficiais e documentos contratuais
  • Partilha de dados pessoais e financeiros: forneça apenas a informação necessária e, sempre que possível, utilize dados anonimizados. Antes de usar uma ferramenta, verifique quem trata os dados, para que finalidades, durante quanto tempo são guardados e se podem ser partilhados. Nunca forneça palavras-passe, PIN, códigos de autenticação ou credenciais bancárias
  • Ligações diretas às contas bancárias: algumas aplicações permitem consultar movimentos através de serviços de informação sobre contas. Estes serviços exigem o consentimento expresso do utilizador e devem limitar o acesso às contas e operações autorizadas. Confirme se o prestador está habilitado e faça a ligação apenas através dos canais seguros da aplicação e do banco
  • Recomendações pouco transparentes ou enviesadas: as respostas podem ser influenciadas por dados incompletos, enviesamentos, relações comerciais ou pela forma como a pergunta foi colocada. Procure perceber que informação foi considerada, que alternativas foram excluídas e como foi avaliado o risco
  • Decisões totalmente automatizadas: o RGPD prevê proteção quando uma decisão exclusivamente automatizada produz efeitos jurídicos ou afeta significativamente uma pessoa, embora existam exceções e condições específicas. O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial acrescenta regras próprias, aplicadas de forma faseada, incluindo para determinados sistemas utilizados na avaliação da solvabilidade.

Quanto maior for o impacto financeiro da decisão, maior deve ser o cuidado na validação dos dados, das fontes e da entidade responsável pela ferramenta.

 

 

Como começar a usar IA nas suas finanças pessoais em 6 passos

Não precisa de dar acesso às suas contas nem de automatizar todas as decisões. Pode começar por uma tarefa simples e sem partilhar dados sensíveis.

 

  1. Escolha um objetivo concreto: defina se pretende criar um orçamento, analisar despesas, planear uma poupança, compreender um conceito, comparar propostas ou preparar perguntas para colocar ao banco. Quanto mais específico for o pedido, mais útil e fácil de verificar será a resposta
  2. Escolha a ferramenta adequada: um assistente generalista pode explicar conceitos, organizar dados anonimizados ou criar simulações. Uma aplicação financeira especializada pode ser mais indicada para acompanhar movimentos, receber alertas ou reunir várias contas. Nos investimentos, confirme se se trata apenas de uma ferramenta informativa ou de um serviço regulado de consultoria ou gestão de carteiras
  3. Verifique a entidade e as permissões: consulte a identificação da empresa, a política de privacidade, as condições do serviço, as permissões solicitadas, as comissões e a forma de cancelar o acesso. Quando aplicável, confirme também o registo junto da autoridade competente. Desconfie de promessas de rendimentos garantidos, pedidos de transferências urgentes ou entidades pouco transparentes
  4. Partilhe apenas os dados necessários: utilize informação aproximada ou anonimizada. Em vez de carregar um extrato completo, pode criar uma tabela apenas com a data, a categoria e o valor das despesas, retirando nomes, números de conta, referências e contactos
  5. Confirme os resultados: verifique somas, taxas, prazos e pressupostos e compare a resposta com os documentos originais e com fontes oficiais. Em decisões de crédito, investimento ou fiscalidade, utilize a IA como apoio, não como substituto da validação humana
  6. Reveja regularmente a utilização: confirme periodicamente as contas ligadas, os acessos autorizados, as subscrições, os dados guardados, as recomendações automáticas e os objetivos definidos. A automatização deve ajudá-lo a acompanhar o dinheiro, não afastá-lo dessa gestão.

Os conteúdos apresentados não dispensam a consulta das entidades públicas ou privadas especialistas em cada matéria.

Rute Ferreira

Copywriter especializada em finanças

Rute Ferreira

Falo muito, e escrevo ainda mais. Estudei Marketing e Publicidade a sonhar com grandes campanhas, mas foi na escrita que encontrei casa. Hoje, entre cafés pela secretária e gatos a passearem pelo teclado, descomplico temas financeiros complexos e escrevo sempre de pessoas, para pessoas.
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